Francisco Dandão
 
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O mercúrio nosso da cada dia

 
         
 

Francisco Dandão

o Acre, desgraça pouca é bobagem. Não bastassem a conquista territorial sangrenta, o estado crônico de miséria da população, a ausência absoluta de estética urbana, a violência crescente, as endemias próprias da região e o descaso de uma significativa parte dos homens públicos, aparece agora essa história do mercúrio, invasor que está se instalando misteriosamente nos corpos dos acreanos para esculhambar o funcionamento do sistema nervoso central.

     Matéria de duas páginas no Correio Braziliense, edição do dia 1° deste mês, descreve o problema com riqueza de detalhes: número de pessoas já comprovadamente portadoras, histórias de alguns contaminados, índices e formas de contaminação, sintomas imediatos, conseqüências a médio e longo prazos, providências que estão sendo tomadas, depoimento de médicos, laboratoristas, biomédicos e muitas especulações sobre as eventuais causas.

     Pois bem. Acima e além de todos os problemas e prejuízos já causados e ainda por causar, creio que o pior de tudo é a especulação. Não saber de onde vem. Podia ser do peixe, podia ser do boi, podia ser do frango, podia ser da água do rio, podia ser da água mineral... Os exames laboratoriais vão descartando todos os “podia”. E ao tempo em que se descartam algumas hipóteses surgem outras. Pode ser da farinha de mandioca, pode ser do leite, pode ser do tomate, pode ser do calor...

     Pode ser de qualquer coisa (inclusive da terra, do ar, dos raios do sol, da luz da lua, do cocô de alguns candidatos à reeleição) e qualquer um (até tu, Brutus, viu?) pode ser portador nesse instante, posto que, de acordo com a reportagem do Correio, alguns contaminados declararam não sentir até o momento absolutamente nada. Comem bem, dormem bem, trabalham bem, transam bem, bebem bem... Tem, em suma, do ponto de vista orgânico e social, uma vida considerada normal.

     Enquanto não se descobrem as causas da contaminação, creio que cada um dos habitantes do Acre só tem dois caminhos: torcer (“pra frente, Brasil, salve a seleção!”), para não ser um dos portadores, e rezar (“andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”), para que o problema não seja a tal ponto crônico que venha a fazer nascer, num futuro mais próximo do que se pode imaginar, uma geração de crianças retardadas mentalmente (“mudas, telepáticas”?), ou sem braços, ou pernas, ou olhos, como aconteceu nos anos 50, em Minamata, Japão.

     Eu que, embora esteja já há quase dois anos em Brasília, também sou filho dessa terra, quero ressaltar que ainda não senti coisa nenhuma. Mesmo assim, tenho consciência que a qualquer momento um vizinho pode me achar com cara de termômetro. Caso em que eu teria de me rebelar para, no mínimo, ser usado apenas para medir temperaturas dentro de bocas ou, na pior das hipóteses, sob as axilas.

(Publicada no jornal A Gazeta - 7 de março de 1998)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro