Francisco Dandão
 
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..., chove sem parar!

 
         
 

Francisco Dandão

hove pra caramba (eu ia dizer “chove a cântaros”, mas aí me bateu uma forte impressão de já ter lido isso em algum lugar) por esses dias em São Paulo, cidade onde “amarro o meu burro” provisoriamente. Por conta dessa exagerada precipitação pluviométrica nessa “paulicéia” mais do que nunca “desvairada”, ainda não vi um joguinho sequer. Nem umzinho...

     Em compensação, já comprei o meu primeiro guarda-chuva. Artigo de primeira necessidade na capital paulista, o meu guarda-chuva já tem até nome. Eu o chamo de Noé. Foi o primeiro nome que me veio à cabeça. No princípio, eu não sabia muito bem por qual motivo. Depois me ocorreu que eu devo tê-lo batizado por algum tipo de associação com o dilúvio bíblico.

     Sim, claro, é óbvio: quando eu disse que ainda não vi um joguinho sequer, refiro-me à minha presença no estádio, ao contato físico (e quase visceral) com a magia e as vibrações que emanam da partida. Pela televisão, ao contrário, tenho assistido aos borbotões (imagem que, não por coincidência, remete a água caindo de uma torneira, né mesmo?).

     É impossível ficar alheio ao futebol na capital paulista. Se você estiver em casa e teimar em desligar o televisor ou assistir a outro canal, o som do narrador te alcança da casa vizinha. E se você sair para jantar, pior ainda: todos os botecos de São Paulo sintonizam o mesmo canal na hora do futebol. Correr ou ficar é tudo a mesma coisa: o bicho pega ou come!

     Nas noites de quarta e quinta-feira, se você pega um táxi entre meia-noite e uma da manhã (a cidade sofre de insônia, todo mundo sabe, né isso?), mais futebol: variados timbres de voz estão lá no receptor tecendo as suas absolutas verdades sobre os bastidores do esporte, sobre os desdobramentos da rodada e sobre a movimentação do mercado da bola.

     O motorista, não raro um ex-jogador, mesmo que do Dínamo de Osasco, ou do 31 de Fevereiro de Piripiri, quase sempre corintiano ou palmeirense roxo, tem, invariavelmente, um adendo em cima do que diz o comentarista. E, para completar, tão rápido quanto evolui sobre o asfalto molhado, quer saber qual é o time do seu ilustre passageiro.

     “A seleção ganhou da Itália, é verdade, mas foi jogo de compadres. Quando a coisa for pra valer, se não levar os manos do Corinthians, não vai sair do canto”, diz um. “Técnico é o Luxemburgo. Vai ganhar a Libertadores fácil. Ele que devia estar no lugar desse tal de Dunga, assim como o centroavante do Brasil devia ser o Keirrison”, afirma outro.

     Convém não discordar de nada do que sentencia o taxista. Eu mesmo, criatura que vos garatuja de vez em quando estas mal traçadas, já precisei ser corintiano e palmeirense várias vezes, apesar de estar por aqui somente há uma semana. Tudo para não perder o freguês e garantir uma chegada a salvo ao destino... E tome chuva... Noé que não me deixe mentir!

(Publicada no jornal O Rio Branco - 14 de fevereiro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro