Francisco Dandão
 
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Gregório XIII e a bola

 
         
 

Francisco Dandão

ara os grandes entendidos nos princípios filosóficos da esbórnia, o ano, agora, depois do carnaval, é que começou de fato e de direito. Qualquer coisa que tenha sido programada (ou feita) até então, não valeu nadinha, necas de pitibiriba... Puro tempo perdido, embromação em alto grau e maior som, nariz de cera, mais ou menos como o início deste texto...

     Por conta desse princípio absoluto, pelo menos nas terras tropicais ao sul do Equador (falo da linha geográfica e não do país da famigerada LDU, aquele timinho que veio tirar o pão da boca do Fluminense no ano passado), é que (acredito piamente) se pode afirmar que somente depois do carnaval seja possível pensar em alguma coisa realmente séria por aqui.

     Qualquer coisa que aconteça antes do carnaval, se trata tão somente de uma espécie de aquecimento (para que ninguém corra o risco de uma contratura muscular quando o árbitro autorizar o início da partida). Um ensaio, para que as palavras sejam ditas com a entonação certa, cada gesto seja encenado na medida correta, cada suspiro denote uma paixão...

     O calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII (vejam que esse número já existia na Idade Média, sendo responsável por mandar todo tipo de bruxas para a fogueira), em 1582, estipulando que o ano deveria começar no dia 1º de janeiro, é só uma convenção, um grande equívoco... Qualquer criancinha de países orientais sabe disso muito bem!

     Nesse sentido, foi apenas um belo de um factóide a tão propalada invencibilidade do Palmeiras no campeonato paulista (ou, em sentido oposto, a derrota da mesma equipe no jogo de estréia da Taça Libertadores da América). Agora sim, passado o carnaval, as outras equipes vão botar o bloco (ato falho!) na rua e mostrar com quantos gols se faz um campeão.

     Da mesma forma como aquela vitória da seleção brasileira contra a Itália, naquele amistoso em Londres. Só mesmo “pra inglês ver”. Eu até me empolguei na hora do jogo. O que eu só descobri depois é que, sendo antes do carnaval, a única coisa que aquele jogo queria provar era que o Robinho, apesar do noticiário em contrário, ainda gostava de comer a bola.

     E aquela derrota do Rio Branco para o Santos, na Arena da Floresta, pela Copa do Brasil? Apenas um treino de luxo. Tendo acontecido antes do carnaval, quando os tamborins e as cuícas ainda não tinham soltado o seu grito nas avenidas nacionais, não valeu coisa nenhuma. Quer dizer, valer até que valeu, mas só para efeito de regulamento da CBF, só isso.

     É por conta disso, meus caríssimos e amados leitores, que o campeonato acriano (ainda me assusta essa grafia) de futebol, para evitar desperdício de energias (quaisquer que sejam), e dando provas que conhece filosofia oriental, ignora as determinações de Gregório XIII e só começa depois do carnaval. Simples assim e pra valer. Eu quero ver é o pau comer!

(Publicada no site www.grandearea.com – 28.02.2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro