Francisco Dandão
 
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Cartão amarelo

 
         
 

Francisco Dandão

não bastassem todas as tensões da vida contemporânea, que dá à maioria de nós a sensação de profunda insegurança (não há mais lugar algum onde se possa ficar absolutamente tranqüilo, seja por medo de bala perdida, seja por medo de um motorista bêbado invadir o ponto do ônibus), agora ainda aparece mais essa mal contada história da gripe suína.

     Do dia para a noite (ou vice-versa), um avião saiu do México e danou-se a espalhar um vírus letal pelos quatro cantos do planeta. A providência de fechar algumas fronteiras, impedir voos para o país de Emiliano Zapata, ou erigir algumas barreiras sanitárias, tudo tem se provado completamente ineficiente, a cada vez que aparece um novo caso.

     Embora as autoridades (aqui e alhures) cansem de dizer nas telas das televisões que “tá tudo dominado” e que não há motivo para pânico, o certo é que muitos agora se borram de pavor ao simples fato de perceber alguém espirrando do outro lado da rua. Alguém tossindo por perto, então, nem pensar. A vontade é de chamar logo a ambulância para internar a criatura.

     Fosse um jogo de futebol, nesse sistema de ida e volta, a gente já teria entrado perdendo de 5 a 0. Como se uma laranja mecânica (a Holanda da década de 70, lembram-se?) estivesse ao lado dos inimigos, enquanto ao nosso lado a turma do Plácido de Castro recheada de uruguaios. O rebaixamento pra “segundona” estaria sacramentado, sem choro nem vela.

     Em São Paulo, a propósito, já existe gente pensando em mudar o animal símbolo do Palmeiras. Com toda a razão, né? Não fica bem, por enquanto, ficar fazendo a apologia do porco nos estádios. Já pensaram a ironia? Parte da multidão gritando “dá-lhe porco!” (ou então: “Vamos ganhar, porco!”) e a outra parte tossindo e com o nariz escorrendo... Mal!

     O problema dos palmeirenses vai ser escolher outro símbolo. A maior parte dos outros animais já está devidamente ocupada. O Santos é peixe, a Ponte Preta é macaca, o Fortaleza é leão, o Vasco é bacalhau, o Atlético Mineiro é galo (assim como o Atlético Acreano), o Flamengo é urubu, o Juventus é águia (voando alto, aliás) e assim por diante...

     Claro, ainda existem alguns animais que não são mascotes de time nenhum. Mas, muitos dos que estão desocupados dificilmente poderão vir a ser aproveitados. Uma zebra, por exemplo... Dá para usar uma zebra como símbolo? Pouco provável. Desmoralizaria qualquer vitória do time que tal animal representasse. Da mesma forma, seria estranho um frango mascote.

     Aliás, frango também é bicho chegado a uma gripe, né, mesmo? É isso. Ao que tudo indica, vai chegar o dia em que o mundo vai ser dominado pelos animais. Aos poucos, essas criaturas que a gente se acostumou a fazer de recheio para os nossos estômagos vão engendrando a hora da sua vingança. Nesse momento estamos levando cartão amarelo!

(Publicada em www.grandearea.com – 02.05.2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro