Francisco Dandão
 
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Juiz tem mãe?

 
         
 

Francisco Dandão

começa neste fim de semana mais uma edição do campeonato brasileiro de futebol. Por coincidência (ou não), a maioria dos jogos da rodada inicial acontece exatamente no Dia das Mães. Ocorre-me, então, neste sentido, que pode ser um grande programa para o domingo cada torcedor levar sua mãe ao estádio mais próximo, unir o útil ao agradável.

     Talvez, por capricho do destino, esse início de campeonato exatamente nesta data seja um jeito de se homenagear a “mãe-bola”, do ventre da qual saem todas as fantasias que embalam os sonhos de todos os torcedores. Se for isso mesmo, o meu conselho é que todos tratem a rainha do jogo com o maior carinho, pelo menos nesse dia. Nada de brutalidades! 

     Vinte clubes, das diversas regiões do Brasil (infelizmente, pelas mais variadas razões, não há nenhum representante do Norte do país), jogarão durante sete meses (o tempo de uma gestação prematura, não custa lembrar, já que eu me referi ao Dia das Mães nos primeiros parágrafos), em turno e returno, para saber quem vai levantar o troféu máximo ao fim da contenda.

     Como sempre, para variar, os grandes favoritos são os times de São Paulo, lugar onde se concentra a maior porção da riqueza nacional. Dizendo de outra forma: o melhor futebol vai estar sempre onde houver mais dinheiro para pagar os artistas da bola. A periferia revela e o grande centro compra, num processo que todos achamos absolutamente natural.

     O raciocínio é o mesmo em se tratando da relação do Brasil com a Europa. Os maiores jogadores brasileiros, com raríssimas exceções, jogam fora do país. A nossa moeda, eternamente podre, apesar do nosso recorrente discurso de país emergente, mesmo que o primeiro mundo esteja em crise, não é capaz de segurar por aqui os nossos artistas mais virtuosos.

     O êxodo nos dias que correm é tanto, a propósito dessa corrida para onde existe mais dinheiro, que grande parte dos garotos brasileiros sequer chega a jogar numa das equipes do país. Empresários, olheiros e aproveitadores de toda a espécie os seduzem e os “seqüestram” quase antes do primeiro chute. Só está faltando comprarem-nos no ventre das “mães”.

     É como se a fonte da nossa alegria de torcedor fosse objeto de uma transposição antes mesmo de nos fazer provar o doce que dela brota. Aquecer o grito dentro da boca, nessa situação de enfraquecimento coletivo, acaba tornando-se muito mais um exercício de fé do que, propriamente, fruto de alguma razão. Uma alucinação pra lá de coletiva.

     Apesar de tudo, porém, o certo é que mais uma vez encheremos os estádios para torcer pelas cores que adornam os nossos corações. Sorriremos, choraremos, alguns tomarão porres homéricos, outros tentarão atingir as nuvens com o som de rojões. E mais uma vez, também, cumpriremos a regra de esculachar a “mãe” do juiz (se é que ele tem uma).

(Publicada no site www.grandearea.com - 9 de maio de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro