Francisco Dandão
 
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A gravidez do desejo

 
         
 

Francisco Dandão

recorto na memória cartões postais do Rio de Janeiro todas as vezes que passo pela cidade. Recorto cartões, reverbero sons, bebo ousadias em canecas de chope e anoto frases em guardanapos para eventuais usos futuros. Do alto, a visão das avenidas beijando o mar garante que a cidade continua linda. Vagabundeando pelas ruas a sensação é a mesma.

     Alguns lugares eu visito sempre, como se procurasse marcas de balas perdidas da guerra que a televisão anuncia. Mas o que vejo contraria tudo o que se diz de ruim da cidade. No perímetro que compõem os bairros do Flamengo, Catete, Glória, Centro e Botafogo, tanto faz a hora da noite ou do dia, idosos e jovens se misturam caminhando em todas as direções.

     Desta vez, a maior parte do tempo eu fiquei fechado numa sala de aula, participando da reunião regional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, onde fui apresentar um relato da pesquisa que ora desenvolvo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mas nada que me impedisse de ir domingo ver o Flu no Maracanã.

     A minha primeira sensação, devo confessar, foi de desconfiança. Precisei fazer as minhas duas mãos jogarem um par-ou-ímpar entre si para saber se eu deveria mesmo ir ou não ao Maracanã. Sim, era o querido Tricolor das Laranjeiras que estaria em campo. Mas, me perseguiam as últimas sofríveis apresentações da equipe, contra Águia de Marabá e Goiás.

     Felizmente, para minha sorte, não é possível extinguir a paixão por conta de uma suspeita. E lá pelo meio da tarde, armado de muita esperança no coração e de um radinho de pilha no bolso, me mandei para o maior templo de futebol do mundo. A profecia de um desastre ficou pelo meio do caminho e dez minutos antes do jogo eu já estava devidamente instalado.

     Pois o Fluminense fez valer cada centavo do ingresso dos quinze mil torcedores (inclusive dos adversários). Se nada mais houvesse na partida, bastava aquele gol do volante Maurício, logo aos dois minutos de jogo: um domínio com o calcanhar direito, a bola quicando na frente dele e um chute perfeito de pé canhoto no ângulo do goleiro Bosco. Uma obra de arte!

     O gol do Maurício, que decretou o primeiro tropeço do São Paulo neste campeonato brasileiro que recém inicia, foi tão, digamos, sobrenatural (além de bonito, é claro) que eu cheguei a procurar o Nelson Rodrigues nas arquibancadas do Maracanã. Da maneira como a bola pegou efeito e enganou o goleiro dos paulistas, só mesmo sendo coisa do além.

     Sobrenatural ou não, pouco importa. O que realmente conta é que a bola se mostrou grávida do desejo de beijar as redes, desde o início desta nova competição. E quando é assim, penso que os torcedores entenderão todos os caprichos dessa deusa-mãe redonda, mesmo que, eventualmente, ela não encontre o certo endereço. Que venha, então, a segunda rodada!

(Publicada no site www.grandearea.com - 12 de maio de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro