Jogos mortais |
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| Francisco Dandão
Para falar a verdade, isso nem chega a ser uma novidade. Na história da humanidade talvez seja preciso procurar bastante para se encontrar algum período de paz completa e absoluta. Ditadores, conquistadores, estados totalitários, revoluções redentoras... Hitler, Mussolini, Stalin, Calígula, Átila, Idi Amin... A história, de fato, é pródiga em exemplos. Apesar de tudo, porém, a maioria de nós ainda se espanta com algumas situações de violência. É o caso das brigas das torcidas de futebol. Se todos, em tese, se dirigem aos estádios para vibrar com as jogadas dos seus ídolos, configura-se totalmente absurdo os confrontos sangrentos (antes, durante e depois) decorrentes do chamado espetáculo esportivo. E o pior é que parece não existir nada que possa ser feito para deter os marginais que freqüentam esses locais de suposta busca pela magia da bola. Boa parte dos torcedores, é verdade, se contenta com o xingamento ao trio de arbitragem e aos jogadores da equipe adversária. Mas há uma outra parte que só se satisfaz com o sangue do oponente escorrendo nas mãos. A polícia já tentou de tudo. De bater a prender, passando por rigorosas revistas nos portões dos estádios, até a escoltar torcidas visitantes. Cavalos circulando no meio da multidão, cachorros adestrados para voar nas gargantas dos brigões... Nada até agora adiantou. A baba no canto da boca dos facínoras tem sido mais espessa do que qualquer repressão. Essa quarta-feira que recém passou, em São Paulo, a batalha envolvendo torcedores do Corinthians e do Vasco se configurou num desses momentos em que a gente fica descrente dessa condição do humano. As ruas nos arredores do Pacaembu, por onde eu passo todas as noites voltando do trabalho, transformaram-se num verdadeiro front de guerra. A competição se chamava Copa do Brasil, mas bem que poderia se chamar alguma coisa como “Quarta-feira Macabra”, “A Noite das Bestas”, “Apocalipse Now”, “Madrugada dos Mortos”, “Jogos Mortais”, “A Um Passo da Eternidade”, “Rastros de Ódio”, “Gomorra”, “Armagedon”... Qualquer coisa desse tipo, mas de jeito nenhum “Copa do Brasil”... A adrenalina do jogo já não basta, não interessa mais o grito de gol... Para os marginais vestidos de torcedores, a emoção que conta é da morte; o grito que conta é o da agonia. Não existem para eles adversários nem um palco de jogo. Existem inimigos e uma arena onde as vísceras dos mortos deverão ser espalhadas. Corpos envenenados pelo ódio e cinzas no asfalto... (Publicada no site www.grandearea.com - 6 de junho de 2009) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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