Francisco Dandão
 
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Lenda urbana

 
         
 

Francisco Dandão

um antigo adágio popular diz que os números não mentem jamais. Pois eu lhes digo, meus caros leitores, os números mentem sim senhor. Pode ser que eles não mentissem na primeira vez em que o adágio foi proferido, mas agora isso já ficou para trás na poeira do tempo. Agora eu tenho certeza que há um conjunto de números mentirosos voando por aí.

     Veja-se, a propósito dessas minhas afirmações aí do primeiro parágrafo, esse jogo do Brasil, sábado passado, contra o Uruguai. A julgar pelos números, quatro a zero a nosso favor, teria sido um passeio, show de bola da equipe brasileira, um banho no pessoal lá das beiradas do rio da Prata... Não é isso que a gente pensa quando fica sabendo o placar?

     Pois eu lhes afirmo, meus prezados amigos aí do outro lado do texto, com toda a convicção de torcedor que espera um dia ainda ver a seleção brasileira jogando bem: para mim foi a maior “melada” da história essa goleada sobre o Uruguai. Um verdadeiro golpe de sorte desse bando comandado pelo Dunga. Um achado. Placar total e absolutamente injusto.

     Aquele gol do Daniel Alves, por exemplo, o primeiro do Brasil, nem chutando mais um milhão de vezes o lateral brasileiro consegue fazer uma bola como aquela entrar. O chute saiu fraco, sem maiores pretensões, provavelmente muito mais por falta de saber o que fazer com a bola do que, necessariamente, por vislumbre de alguma possibilidade de sucesso.

     Outra evidência a favor desse meu argumento é a de que o goleiro Júlio César foi considerado como o melhor jogador brasileiro em campo. Ou seja: o bando do Dunga deu de quatro, mas tomaria seis facilmente, se não fosse a atuação soberba do seu goleiro. Aliás, atuação soberba do Júlio César está se tornando rotina. O Equador, duas partidas atrás, que o diga.

     E para completar, como se não bastasse, o Dunga ainda falou em “equilíbrio” na coletiva depois do jogo. “Não tem muito o que falar quando se ganha de quatro a zero. Nossa equipe foi equilibrada, tanto na parte ofensiva como defensiva. Isso é fruto da conscientização de cada um em dar o melhor de si”, disse o referido personagem. Conscientização? Onde?

     O técnico brasileiro viu um outro jogo, porque no que eu vi o Brasil teve muito menos posse de bola, abusou do direito de errar passes, os atacantes demonstraram profunda apatia (o Robinho chegou a entrar em campo?), o Kaká parecia sonhar com os euros do Real Madrid, os volantes e os zagueiros abusaram do chutão no rumo da frente... Uma lástima!

     Se eu achei ruim o resultado? É claro que não. Em termos práticos, para efeito de classificação ao Mundial de 2010, eu adorei. Seria loucura torcer por uma equipe e achar ruim uma vitória. Mas que a exibição do Brasil não foi nada desse primor que o placar sugere, isso não foi mesmo. Números nunca mentem... Acaba de ser destruída mais uma lenda urbana!

(Publicada no site www.grandearea.com - 9 de junho de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro