Milhões de possibilidades |
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| Francisco Dandão
Diferentemente daquele quatro a zero enganador da semana passada (os números aprenderam a mentir, eu disse no texto anterior), quando o Uruguai nos pressionou tanto que fez o goleiro Júlio César acabar a partida como o melhor homem em campo, dessa vez o Brasil enquadrou direitinho o adversário, dominando-o desde sempre e ditando o ritmo da contenda. Como é sabido que não se muda água em vinho do dia para a noite (a não ser que o mágico responda pelo nome de Jesus), assim como parece ainda estar longe o momento em que um alquimista vai conseguir transformar cocô em pedra preciosa, é preciso investigar as causas dessa súbita bela apresentação do Brasil. Corro às ruas para procurar pistas... Mal dobro a primeira esquina (Mathias Aires com Frei Caneca) e já me deparo com o que pode ser um primeiro sinal. Num recuo de marquise, uma espécie de altar guarda restos de farofa e uma garrafa de cachaça meio vazia, adornando a imagem de um porco com a cabeça do Cabañas, o atacante gordinho dos paraguaios... Absolutamente insólito! Milhões de possibilidades dançam numa fração de segundo no vasto espaço entre as minhas orelhas direita e esquerda. Teria sido um fã da gripe suína o autor da proeza? Teria sido um flamenguista ainda aborrecido pelos gols que o paraguaio fez na equipe carioca na Libertadores do ano passado? Seria simplesmente macumba mesmo? Meus três neurônios pedem arrego... Alguns passos adiante, na vitrine de um sebo de livros (existem milhares na capital paulista), um pôster gigante do general Solano Lopez, sisudo (“colérico” talvez seja um adjetivo mais adequado) como se a fotografia houvesse sido tirada num dia de intensa dor de barriga do referido militar, me encara com um olhar arrogante (típico dos ditadores). Milhões de outras possibilidades afloram em uma outra fração de segundo. Talvez o general, maior reforço dos paraguaios em todos os tempos, tenha perdido o voo para Recife.... Talvez tenha resolvido ficar em São Paulo de propósito, com o intuito de acompanhar a parada gay, marcada para domingo... Talvez tenha, simplesmente, corrido do pau... Duas horas de caminhada depois, com os meus bofes já ensaiando comprar um casaco de lã para se proteger do frio paulistano, volto para casa sem nada conclusivo me ocorrer... Mas, um último palpite me vem à mente, em forma de interrogação: como grande parte dos produtos vendidos no Paraguai, não seria também falsa aquela seleção deles? Hein? (Publicada no site www.grandearea.com - 13 de junho de 2009) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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