Francisco Dandão
 
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O dito pelo não dito

 
         
 

Francisco Dandão

volta e meia uma história sobre racismo sacode o mundo do futebol. O caso mais famoso (ou escandaloso) aqui no Brasil aconteceu, salvo engano, em 2005, envolvendo o atacante Grafite, do São Paulo, e o zagueiro argentino Desábato, do Quilmes (por acaso, marca de cerveja lá dos hermanos). O argentino teria chamado o brasileiro de macaco.

     Eu não sei qual o nome de batismo do Grafite. Mas sei que grafite é apelido. E sei também que um apelido desse tipo diz respeito à cor da pele do sujeito que o carrega. A intenção de quem botou o apelido no Grafite? Difícil saber, a essa altura, se teve alguma conotação pejorativa ou se foi apenas um carinho. Mas o certo é que Grafite não é nome, é apelido.

     Por outro lado, o apelido de macaco nem sempre parece ser assim tão ofensivo. No Acre, nos idos das décadas de 70 e 80, brilhou um atacante de apelido Rui Macaco (falecido em 2007). Ele nunca ligou para a forma como era chamado. Adotou até o apelido como sobrenome e até descartou que se referia a cor da sua pele. Dizia que era porque ele pulava demais.

     Então, dadas as considerações acima, descontando todos os noves foras, a conclusão óbvia é a de que o problema não é o apelido em si, mas a forma com alguém tasca esse apelido. A carga subjetiva da palavra é que pode causar a injúria ou acariciar de leve a face atingida. Do mesmo modo, a agressão só atinge de verdade aqueles que se deixam ofender.

     O assunto me ocorre por conta de um novo desses casos, mais uma vez envolvendo um argentino (tem confusão, eles estão na parada), o atacante Maxi López, do Grêmio, e um brasileiro (o eterno vira-lata do complexo rodrigueano), o zagueiro Eli Carlos, do Cruzeiro, em partida válida pelas semifinais da Taça Libertadores da América, no Mineirão.

     Assim como no entrevero entre Grafite e Desábato, a confusão desta vez também foi parar na polícia. Diferentemente, porém, agora o suposto agressor pelo menos não foi preso. Desábato passou quase dois dias vendo o sol nascer quadrado, em São Paulo. Só foi solto depois de pagar uma fiança. Já Maxi López negou a agressão e disse que nem fala português.

     Maxi López garante que foi mal entendido. Por sua má compreensão do idioma, quis dizer “bife de caçarolinha”, e Eli Carlos entendeu “rifle de caçar rolinha”. Talvez não tenha tido mesmo a intenção de ofender (podia, inclusive, ter optado por xingar a mãe do brasileiro). Talvez tenha apenas errado na dose. Talvez tenha somente ido com muita sede ao “poste”.

     No fim das contas, vai ficar o dito pelo não dito. No quartel de Abrantes, a vida passa e tudo permanece como dantes. Desábato foi preso, pagou uma fiança e agora quer mais é ver o Brasil pelas costas. Grafite não é negro como algum macaco, Grafite é negro como um carbono. Já Eli Carlos, não é grafite ou macaco, é só um jogador. Detalhes de uma decisão!

(Publicada no jornal O Rio Branco - 28 de junho de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro