Francisco Dandão
 
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Rezar, jogar, rezar...

 
         
 

Francisco Dandão

antigamente, quando a seleção brasileira ganhava uma competição os jogadores faziam um samba de roda no gramado para comemorar a conquista. Como que saídos do nada, instrumentos de percussão se materializavam nas mãos dos craques e tome rebolados, sorrisos e um show de descontração, em imagens que corriam o mundo num átimo de segundo.

     O país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, resplandecia naquele tipo de comemoração. Alegria, alegria, o caminho contra o vento estampava-se nas bancas de revista. Lenço ou documento pouco importavam, tanto para os jogadores sob a lente dos fotógrafos quanto para nós, do outro lado das telas, sorvendo as nossas louras suadas.

     Os gringos contemplavam a festa na maior perplexidade. Não entendiam nada. Como é que podia uma coisa daquelas? Como é que aquele bando de negrinhos, a maioria oriunda das camadas mais miseráveis da população, podia dobrar a ciência das raças mais puras? Que tipo de feitiço era aquele que dava aos pés dos subnutridos tanta leveza e precisão?

     O auge da nossa felicidade, bem como da perplexidade deles, penso enquanto escrevo, provavelmente tenha sido na época dos gênios Pelé e Garrincha. Nada explica, até hoje, nem os mais poderosos computadores dos centros de processamento de dados mais avançados, o que essas duas entidades terrenas faziam com a bola. Pura intuição, nenhuma ciência.

     Mas isso, como eu disse lá na primeira linha, era antigamente. Agora, ao invés de uma boa e alegre batucada, depois de uma conquista o que os nossos “craques” fazem é uma roda de oração. Ajoelhados no meio do campo, logo após o apito final desse jogo contra os “poderosos” Estados Unidos, a televisão os mostrou em êxtase místico pela graça alcançada.

     A impressão que eu tive é que eles não estavam rezando somente para dar um testemunho da sua fé, mas, isso sim, para agradecer algum tipo de milagre. O milagre de terem conseguido ser campeões num torneio em que, exceto a Itália e a Espanha, não me ocorre que alguém merecia tanta oração. Egito, África do Sul, Iraque, Estados Unidos, Nova Zelândia...?

     Não que eu tenha alguma coisa contra orações. Ao contrário. Tenho convicção de que qualquer montanha é fichinha para uma dose mínima de fé. No Brasil, então, onde até os ateus clamam por Deus quando estão em apuros, qualquer cancioneiro popular, seja ele baiano ou soteropolitano, sabe muito bem que “a fé não costuma falhar”. É só rezar com fé e andar.

     O problema não são as orações. O problema é a possível dependência do milagre para a perspectiva de sucesso. Afinal de contas, as outras seleções também têm os seus deuses. E se agora nós fomos os ungidos com a vitória, num outro momento, nessa loteria da fé, pode ser a vez dos filhos de Maomé. Rezar, sim, mas sem esquecer de também jogar alguma coisa!

(Publicada no jornal O Rio Branco – 01 de julho de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro