Arqueologia da cultura |
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| Francisco Dandão
Por conta disso, quando estou em São Paulo (da garoa, das cantinas italianas, das esquinas de pedra etc.) não posso passar por uma portinha que vislumbre um interior cheio desses objetos... A tentação para entrar é irresistível. E aí, meus fiéis (ou infiéis, pouco importa) leitores, lá se vão, com a mais absoluta certeza, horas infindas de arqueologia cultural... Pois outro dia, eu descobri num desses locais um livrinho bem interessante sobre o exercício das divindades no reino do futebol. Por esse livrinho existiriam muitos deuses a governar os desígnios do referido esporte. Um deus dos atacantes, um deus dos zagueiros, um deus dos meio-campistas, um deus dos goleiros, um deus protetor de todos os técnicos... E aí, segundo o livrinho, como nem um dos deuses pode exercer mais poder do que cada um dos outros, para que os pedidos dos seus protegidos possam ser plenamente atendidos, eles (os deuses) rolam os dados antes de cada partida para ver quem é que vai prevalecer naquele momento da vida. Dados sem vícios, sorte lançada no gramado do acaso. Dessa forma, fica explicado que no dia em que um fenômeno assim como o Ronaldo não consegue superar a defensiva adversária, é porque os deuses decidiram, no joguinho particular lá deles, que apesar de todo o talento, o atacante deve passar em branco e, naquele determinado jogo, quem deve sair de campo sorrindo é o perna-de-pau do seu marcador. Aquele pênalti perdido pelo Zico contra a França, na Copa do Mundo de 1986? Desígnio do deus dos goleiros. Aquele frango que o Barbosa engoliu na Copa do Mundo de 1950, contra o Uruguai, em pleno Maracanã? Desígnio dos deuses. Aquele gol de mão do Maradona, contra a Inglaterra, também na Copa de 1986? A própria mão do deus dos atacantes. O que o tal livrinho não explica é se existe um deus maior, aquele que reina acima de todos os outros, aquele encarregado de estabelecer as regras, para a coisa toda não virar bagunça. Mais ou menos assim como Zeus, que distribuía as cartas no Olimpo. Assim como Thor, o dono da bola entre os nórdicos... Assim como Tupã, entre os índios tupiniquins... Mas esse existe com certeza. Existe e começou a criar o planeta bola brasileiro numa terça-feira, destinando o dia para a série B. A quarta ficou para a Copa do Brasil; a quinta para a Libertadores da América; a sexta outra vez para a série B; o sábado e o domingo para o Brasileirão... E na segunda-feira, para dar uma chance à televisão, o deus da bola descansou! (Publicada no site www.grandearea.com - 8 de julho de 2009) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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