Quintal do mundo |
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| Francisco Dandão
No Brasil, já na própria viagem do descobrimento, reza a história que os nossos patronos de além mar, sob a desculpa de deixar alguém cuidando da colônia, largaram por aqui só a escória do velho continente: os famigerados degredados, aos quais se agregaram meia dúzia de náufragos, dando início com as índias deslumbradas à devida descendência brasílica. Durante os anos que se seguiram ao ato fundador, a riqueza nativa percorreu sempre uma via de mão única. Pau-brasil, ouro, prata, diamantes, por vias legais ou contrabandeados no interior de santinhas de pau oco, abarrotaram navios e mais navios rumo à Europa “branca e de olhos azuis” (tomo emprestada a expressão usada um dia desses pelo nosso líder maior). Passada a época das pedras preciosas, foi a vez das quadrilhas internacionais se voltarem para os recursos naturais. A própria borracha amazônica, que tanta riqueza proporcionou ao país, acabou virando a pedra filosofal da Malásia, levada às escondidas por um inglês que penetrou pelos confins do chamado “inferno verde” nos idos anos do século XIX. A coisa chegou a tal ponto, nessa onde de ida sem retorno, que se não fosse uma vitória suada nos tribunais internacionais, sequer a gente poderia a essa altura passar no supermercado para comprar polpa de cupuaçu, sem pagar royalties a empresários japoneses. Peixe cru, alga, arroz e saquê, tudo bem... Mas, cupuaçu só se pagar a Fumanchu, non? Enquanto isso, a porcaria toda, principalmente o que não interessa mais a eles, chega por aqui aos borbotões. Da Coca-Cola aos filmes enlatados, passando pelos hábitos alimentares ou pela tradição da família e da propriedade, tudo que a Europa (ou a América) chic nos empurra, nós abrimos os braços, ensaiamos um sorriso largo e consumimos à farta. Essas trocas desiguais me vieram à cabeça no momento em que sentei para cometer a minha crônica do fim de semana por conta de duas notícias aparentemente sem conexão uma com a outra. Primeira: contêineres cheios de lixo que a Inglaterra mandou direto para Santos. Segunda: a janela das transferências dos nossos futebolistas para o exterior. Traduzindo: nós mandamos para eles, de uma só tacada, o Nilmar (Espanha), o Keirrison (Espanha), o Christian e o André Cruz (Turquia), o Lulinha (Portugal) e recebemos em troca caixas cheias de bolsas de sangue contaminado, camisinhas usadas, restos de comida, baganas de cigarro, vírus de gripe suína etc. Se tiver governo neste país, sou contra! (Publicada no jornal O Rio Branco - 26 de julho de 2009) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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