Francisco Dandão
 
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Adeus, ave perversa!

 
         
 

Francisco Dandão

guardadas as devidas proporções, essa fórmula de disputa da série C do campeonato brasileiro lembra em muito a Libertadores da América. Ambas as competições começam com grupos e seguem com confrontos no famoso sistema mata-mata. Praticamente todos os jogos se revestem de um caráter decisivo. E assim, tome emoção para todos os gostos e corações.

     Perder em casa nem pensar. É resultado absolutamente proibido. A equipe que deixa de ganhar todos os pontos que disputa nos seus domínios, acaba dependendo dos resultados dos outros. E, dessa forma, como nem sempre o destino conspira a favor do incauto, o castigo vem a galope. Choro, ranger de dentes, lamúrias e a procura obsessiva de culpados...

     Esse time do Águia de Marabá, pra lá de encardido, destemido como só um caboclo dos baixios paraenses sabe ser, começou a competição a todo vapor, mas depois descuidou do dever de casa. Por conta disso, teve que disputar a classificação longe da sua torcida. Agüentou o que pôde, mas não houve jeito. No fim das contas rendeu-se ao futebol acreano.

     O erro do Águia de Marabá foi exatamente esse de deixar escapar pontos preciosos no seu estádio, sob os olhos da sua apaixonada torcida. Em jogos de ida e volta, uma equipe pode até perder todas (não é o ideal, mas pode) quando viaja, mas é inadmissível não ser cem por cento (de preferência goleando os adversários) na situação de mandante da partida.

     O mérito do Rio Branco, aquilo que determinou a diferença em relação aos outros integrantes do grupo dos nortistas, foi exatamente estabelecer como lei o fato de que no seu terreiro ninguém pode ditar normas. A Arena da Floresta nem pode ser chamada de alçapão, mas dentro das quatro linhas deste estádio a estrela rubra costuma brilhar solitária.

     Seria, aliás, insuportável outro revés para o Águia, equipe treinada por um sujeito que fala mais do que a própria boca. Foi o Águia quem, no ano passado, com um jogador a menos em campo e perdendo por dois a zero, conseguiu uma virada quase impossível frente ao Rio Branco. Noite de muita chuva aquela. Agora, porém, não houve chuva, trovoada ou raio.

     Andando pelo mundo, como tem sido minha prática nos últimos tempos, não pude ser testemunha ocular desse capítulo épico da história do Estrelão. Mas dos braços da minha rede estendida nas imediações da Praia de Iracema, em Fortaleza, ouvi tudo pela Rádio Difusora Acreana. Ouvi e torci como se estivesse no estádio. Ouvi, torci e fui bem recompensado.

     O melhor de tudo? Tal qual no dia em que a sorte sorriu para o Águia, neste último domingo o Rio Branco também ganhou de virada. Tomou o um a zero e parecia que outra catástrofe estava por vir. Mas era só a oportunidade dada pelo destino aos acreanos de se vingar na mesma moeda. Dois a um no finalzinho do jogo. Até nunca mais, ave perversa!

(Publicada no jornal O Rio Branco - 5 de agosto de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro