Francisco Dandão
 
Principal    Depoimentos    Obras    Textos     Crônicas     Entrevistas    Biografia    Fotos    Contato
   
         
 

Incômodo

 
         
 

Francisco Dandão

bateu na trave outra vez. Pra variar, o Rio Branco esteve de novo com o passaporte para a série B do campeonato brasileiro na mão, a alguns centímetros do funcionário encarregado do carimbo redentor. Na última hora, porém, não teve força suficiente para definir o ato. Nenhum dos seus jogadores foi competente para desferir o toque final para a apoteose.

    Essa história tem se repetido insistente e irritantemente nos últimos anos. Tem se repetido tanto que eu fico pensando que não pode ser mera coincidência. Alguma coisa no percurso do Estrelão não deve estar certa. Não é possível, tantas vezes, com tudo a favor, decidindo em casa, deixar a vaga escapar pelo ralo. Não tem torcedor que agüente tanta pauleira.

Alguém no Rio Branco precisa urgentemente proceder a algum tipo de estudo que detecte onde é que o bicho vem pegando. Falta dinheiro para contratações mais eficazes? Falta estrutura para dar tranqüilidade aos atletas do elenco? Falta critério nas contratações dos jogadores? Falta compromisso de alguém do grupo? Falta equilíbrio na direção do clube?

Pode ser qualquer uma dessas indagações, pode ser que várias (ou todas) se conjuguem, assim como também pode não ter nada a ver nenhuma delas. Apenas teço especulações em torno do assunto. Eu e qualquer um que não viva o dia-a-dia do clube não temos condições de fazer uma análise exata. Alguém de dentro é que deve fazer o diagnóstico.

O certo é que como está não pode ficar. A Arena da Floresta, qualquer dia desses, de tanto desencanto do torcedor, vai acabar às moscas. Continuando nesse caminho de decepções, vai chegar o momento em que serão pouquíssimas as almas que se prontificarão a deixar o recôndito dos seus lares num domingo de sol para ir ao estádio sofrer mais frustrações.

    E esse não é um pensamento agourento, que eu também torço pelo Rio Branco (ou qualquer outro time que represente o Acre nas competições nacionais). Esse é um raciocínio baseado na crença de que ninguém mais tem vocação para o martírio. A última criatura que se deixou pregar na cruz por amor ao próximo foi um judeu de nome Jesus. E isso já faz um tempão.

Em Manaus, por exemplo, de tanto que o futebol amazonense desceu na escala de valores do esporte brasileiro, o outrora belo estádio Vivaldão viu um verdadeiro êxodo dos torcedores, transformando-se no que se pode literalmente chamar de “elefante branco” em plena selva equatorial. Agruras e dores de cabeça já bastam as da luta pela sobrevivência digna.

    É isso. No momento em que cometo essa crônica, por volta da meia-noite de mais um domingo trágico para o futebol acreano, múltiplas sensações se misturam dentro da minha cabeça e do meu coração. A um só tempo, sinto-me triste, impotente e emputecido. Não sei as porções de cada um desses sentimentos. Mas eles estão em mim... E incomodam pra cacete!

(Publicada no site www.grandearea.com - 18 de agosto de 2009)

 
         
         
 
VOLTAR Voltar
 
TOPO   IMPRIMIR   ENVIAR E-MAIL 
© Francisco de Moura Pinheiro