Sétimo dia |
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| Francisco Dandão
A primeira vez que eu o vi em ação, nos últimos anos da década de 1960, quando eu recém havia chegado de Brasiléia (minha cidade natal), não tive dúvida de que ali estava uma criatura iluminada pelos deuses do esporte. Correndo em velocidade, da margem do campo para o meio da área adversária, era impossível pará-lo sem um maldoso e certeiro pontapé. Gigante no futebol, embora baixinho na estatura corporal, não foram poucos os laterais inimigos que o Bico-Bico, à maneira do semideus das pernas tortas Mané Garrincha (este reverenciado no mundo inteiro), chamou de João e convidou para uma contradança grotesca, ao som das gargalhadas e aplausos de quantos tiveram a ventura de vê-lo em ação. As propostas que surgiram para tirá-lo do futebol acreano não foram poucas, por conta dos seus costumeiros shows, no castigado gramado do Stadium José de Melo. Qualquer equipe de futebol profissional que excursionasse pelo Acre tentava levar o Bico-Bico na bagagem de volta. Nenhum convite o seduziu. E ele sempre foi que foi ficando (eternamente). Lépido e fagueiro, o pequenino Bico-Bico faz parte de uma constelação de craques maravilhosos que vestiram a camisa do tricolor Independência em boa parte dos anos de 1970. Zé Augusto; Chico Alab, Deca, Palheta e Flávio; Escapulário, Augusto e Aldemir Lopes; Bico-Bico, Rui Macaco e Júlio César. Esquadrão de 1974, quantas saudades, hein... Indiscutíveis, sem exceção, a esses personagens desse time de 1974 pode-se acrescentar, ainda, em anos ligeiramente anteriores ou posteriores, nomes como Ilimani, Ociraldo, Jangito, Agrícola, Bebé, Heró, Jorge Floresta, Otávio, João Carneiro, Campos Pereira, Dadão, Lula, Otacílio... Todos eles estiveram, em algum momento, lado a lado com o Bico-Bico. Muitas histórias pitorescas também fizeram parte da vida do Bico-Bico. Grande parte delas em torno do fato de que o saudoso e pranteado ex-jogador adorava uma “manguaça”. Há, inclusive, quem jure que ele jogava muito melhor quando tomava umas e outras. Nesses dias, dizem, ele soltava fogo pelas narinas e fuzilava os goleiros com o vermelho dos olhos. A última vez que conversei com o Bico-Bico, em 2002, para fazer o texto de um Memorial do Craque (coluna publicada durante um par de anos no jornal Página 20), ele negou veementemente a versão da cachaça. Pediu-me que não tocasse nesse assunto na matéria. Ele não imaginava o quanto esse detalhe o tornava ainda mais especial. Que descanse em paz! (Publicada no site www.grandearea.com – 11 de setembro de 2009) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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