Francisco Dandão
 
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Nuvens negras no céu argentino

 
         
 

Francisco Dandão

por mais que eu não morra de amores pela seleção de futebol da Argentina, penso que ela não pode ficar de fora da próxima Copa do Mundo. Los hermanos, a despeito de qualquer coisa que se possa dizer da sua empáfia, de fato jogam um futebol de fino trato. E se estão em situação difícil nas eliminatórias é porque não tem um técnico que os comande.

     A partida deste sábado contra o Peru, em Buenos Aires, configura-se fundamental para as pretensões dos argentinos seguirem sonhando em ir à África do Sul no ano que vem. Para se classificarem sem depender da disputa da repescagem, os portenhos precisam vencer os seus dois jogos e ainda torcer por um tropeço do Equador. Parece até mentira, mas não é.

     Zebra total e absoluta. Eu diria que essa situação da Argentina era impensável no início das eliminatórias. Recheada de craques milionários, o que todos pensávamos era que ao fim da competição estariam classificados o Brasil, a Argentina e mais dois (quaisquer dois, Uruguai, Paraguai, talvez a Colômbia). Aposta para quebrar a banca em qualquer boa casa do ramo.

     E para completar a salada de jiló com pequi (só de pensar nesses dois ingredientes me dá ânsia de vômito) lá deles, de acordo com rumores que voaram pelos ares do planeta no correr da semana, ainda existe a possibilidade de o desclassificado Peru receber uma “ajudinha” por fora (chama-se “mala branca”) para endurecer contra Maradona e companhia.

     A perspectiva de topar pela frente com um Peru endurecido deve estar causando um frio na espinha dos platinos. Entretanto, lembram-me os meus neurônios cansados, esse mesmo Peru que pode “endurecer” no jogo deste sábado, segundo os registros históricos (suprema e perversa ironia) é o mesmo que foi pago pelos argentinos para “amolecer” na Copa de 1978.

     Meus teclados fiéis companheiros de jornada se metem no raciocínio da crônica para explicar-me que, além do suborno usado em 1978 pelos generais que detinham o poder na época, existem várias outras maneiras de amolecer um Peru. Uma dessas maneiras, e que qualquer cozinheiro domina, seria a de cozinhar o bicho em fogo alto durante vários dias.

     O problema, no caso, é que talvez não haja tempo pra isso. Congelados pelo frio da Cordilheira dos Andes, bem como devidamente escaldados pelas tramóias dos argentinos de outrora (distribuição de dinheiro, água batizada, foguetório na porta dos hotéis etc.), os peruanos já avisaram que só descem o morro no dia marcado para a respectiva partida.

     Refresco, certamente, não vai ser esse final de eliminatórias para a Argentina. Mas eu continuo dizendo que não será legal se eles não se classificarem. Como numa canção de Mercedes Sosa, que partiu para o além por esses dias, os argentinos precisam erguer os olhos para o alto e implorar que o céu novamente se torne azul (como a bela camisa deles)!

(Publicada no site www.grandearea.com - 8 de outubro 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro