Francisco Dandão
 
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A vida é bela para os vencedores

 
         
 

Francisco Dandão

direto da serra do Rio de Janeiro, onde a seleção brasileira de futebol realizou os seus treinamentos intensivos para enfrentar os perigosos comandados do companheiro Morales, o que os pasquins disseram foi que “choveu a cântaros” (expressão que eu acabei de criar, mas que bem pode ter sido usada por algum plagiador antes desta data) durante a semana.

     Até aí, tudo bem. A vida é sempre bela pra quem está vencendo. Não é uma chuvinha a mais ou a menos que vai tirar o humor de uma equipe que joga as duas últimas rodadas de uma competição super importante, como é o caso de eliminatórias para uma Copa do Mundo, na condição de classificada. Os perdedores que corram atrás ou então que se arrebentem!

     Na pior das hipóteses, o que pode acontecer é voltar da Bolívia com uma surra na bagagem, mas sem nenhuma espécie de maiores danos colaterais, a não ser a honra um tanto arranhada. Mas e daí? Além de não significar nada em termos práticos na caminhada rumo ao hexa, sempre se pode culpar a altitude, o ar rarefeito ou o “pollo com papa” pelo insucesso.

     Dunga, o treinador que o presidente da CBF um dia tirou da cartola, aliás, com toda a esperteza que Deus (ou teria sido o Sebastião Lazzaroni, seu mentor técnico na seleção de 1990?) lhe deu, sabendo que a barra costuma ser pesadíssima no alto do morro de La Paz, passou os últimos dias acenando com a possibilidade de jogar com um time cheio de reservas.

     Assim, em caso de uma derrota, o que é bastante provável (vide a Argentina, que não acreditava em altitude e levou um sacode pra mais de metro), além de todas as desculpas naturais (aquelas citadas no terceiro parágrafo deste texto), ainda se pode usar mais esta de ter jogado com suplentes para poupar titulares e observar o comportamento dos primeiros.

     O Brasil, entretanto, convém lembrar, tanto faz se com titulares, reservas ou muito pelo contrário, desde que as eliminatórias passaram a ser jogadas neste sistema de turno e returno (acho que no ano 2000), jamais venceu jogando em cidades a mais de 2.500 metros de altura. Em Quito, Bogotá e La Paz, foram três derrotas e quatro empates em sete jogos.

     Então, por tudo isso (e por outras coisinhas mais), como eu disse numa crônica publicada um dia desses atrás, por mais incrível que possa parecer (e apesar da segunda-feira dedicada a Nossa Senhora Aparecida, padroeira da nossa nação varonil), os desclassificados bolivianos são sim os favoritos contra os pentacampeões brasileiros no confronto deste domingo.

     Uma última confissão, para que ninguém venha a dizer que eu sou do contra ou que estou torcendo pela Bolívia só porque nasci em Brasiléia (o que me faz, pela minha natureza intrínseca, separado geograficamente do inimigo apenas pelas águas do rio Acre) etc. e tal: apesar de tudo, eu também vou torcer fervorosamente pelo Brasil. O que se há de fazer, né?

(Publicada no site www.grandearea.com - 10 de outubro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro