Francisco Dandão
 
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Da montanha ao pantanal

 
         
 

Francisco Dandão

vejam só vocês como são as coisas. Uma derrota da seleção brasileira de futebol nunca foi tão previsível como nos tempos que correm. Principalmente se o adversário se chamar Bolívia e se a partida estiver marcada para a altitude da capital dos patrícios. É cravar palpite seco e ficar esperando sentado o resultado. Bolívia na cabeça, fácil, fácil.

    Eu antecipei o resultado em duas crônicas publicadas aqui mesmo neste espaço. A mistura dos vários ingredientes (a altitude era somente um deles) apontava para esse fim. E nem se pode dizer que foi um exercício maluco de futurologia. Muito pelo contrário. A antecipação do resultado prevista nos textos referidos atendeu apenas ao critério da mais pura lógica.

    Rapadura, diz o ditado popular, é doce, mas não é mole. A seleção boliviana há muitíssimo tempo já estava desclassificada do Mundial da África do Sul. Em termos técnicos, uma verdadeira “teta” para qualquer um chegar e fazer uma festinha. Na prática do futebol, entretanto, quase nada é o que parece ser. No alto dos Andes nem sempre um rio corre para o mar.

    Transidos de medo é como os jogadores brasileiros do presente pegam o avião para ir jogar em La Paz. Perdem antes mesmo de entrar em campo. Arrastam-se dentro das quatro linhas, enquanto os bolivianos exercitam sua correria e incipiência. São espectadores privilegiados. Tanto a bola quanto as próprias pernas se recusam a obedecer. Ridículos!

    Inconcebível, dizem as autoridades médicas, para alguém que não está acostumado a jogar numa altitude daquelas. Argumento plausível, mas não totalmente justificador de tantas derrotas, como se fôssemos fregueses de caderninho. Aliás, para quem já esqueceu, esse mesmo time da Bolívia segurou o Brasil no Rio de Janeiro, ano passado, em pleno nível do mar.

    Gratos à apatia da equipe brasileira, os bolivianos fizeram a sua parte e garantiram uma posição acima da lanterna. Deram esse privilégio ao Peru (outro que não consegue ir a uma Copa há anos) que não foi capaz de endurecer suficientemente contra a Argentina, na noite de sábado (no dizer de uma amiga minha, os “perus” pós-modernos não estão com nada).

    E por assim caminhar a humanidade (bolivianos, peruanos, argentinos, gregos e baianos à parte), chegamos à última rodada das eliminatórias com o Brasil devidamente classificado (mas empatado em pontos com o Paraguai, né?). Em Campo Grande, pantanal do sul mato-grossense, a bola da vez se chama República Bolivariana da Venezuela.

    Minhas cartas de tarô agora indicam que o Brasil vence fácil. Mesmo Hugo Chávez jurando que não emplaca outro mandato se a Venezuela ganhar, mesmo Simon Bolívar voltando do túmulo de espada em riste, mesmo com o Dunga no comando técnico (eu vou ser o último a me render), mesmo qualquer coisa que o valha, dessa vez dá Brasil na cabeça!

(Publicada em www.grandearea.com - 13 de outubro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro