Francisco Dandão
 
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Literatura policial

 
         
 

Francisco Dandão

em parte significativa da literatura policial do século XX, mal se iniciava a leitura, ainda nos chamados prolegômenos, com as personagens sendo apresentados, e com a cena do crime que viria a seguir também ainda sendo delineada, a gente já sabia: o culpado (revelado apenas na última página, como mandava o figurino dos manuais do gênero) era o mordomo.

     Por mais que as evidências apontassem para lados totalmente contrários, por mais que tudo levasse a crer que o melhor amigo, ou a mulher, ou o sócio da vítima estivessem implicados, por mais que inúmeras personagens (o padeiro, o barbeiro, o jardineiro...) tivessem motivos plausíveis, o culpado não poderia ser outro que não fosse o mordomo.

     Encarregado de gerenciar a mansão (os crimes nas novelas policiais clássicas dificilmente não acontecem em mansões, talvez para dar a impressão que os ricos também sofrem as misérias do mundo), gozando da confiança dos patrões, invariavelmente educado, erudito, discreto e acima de suspeitas, ninguém melhor para levar a culpa do que o mordomo.

     Muito bem escritos, em clima de permanente tensão narrativa, esse tipo de literatura prendeu a atenção de milhões de pessoas ao redor do planeta, com algumas histórias até virando roteiros cinematográficos. O único problema é que os leitores se acostumaram com o mordomo levando a culpa. E aí, sem mistério a ser desvendado, a coisa foi perdendo a graça.

     Pois muito bem. Mudando de brisa para vento, comparando-se a literatura policial com o futebol nosso de cada dia, neste último caso, igualmente, apesar de todas as variáveis que envolvem uma partida, no final das contas a culpa recai sempre sobre a figura recalcitrante do (um doce de marmelo para quem acertar...) árbitro, é claro. Sem tirar nem por.

     As estrelas da equipe x estão em período de divórcio litigioso com a bola, omitem-se do corpo a corpo, sofrem sob a inclemência do sol de um horário de verão, erram os passes mais triviais, não conseguem furar o bloqueio armado pela equipe adversária, escondem-se atrás da própria sombra, irritam-se com a marcação do inimigo, mas o culpado é o árbitro.

     Veja-se o caso da gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras, residente e domiciliada nos jardins suspensos da Avenida Antártica, na capital paulista, que até um dia desses atrás era líder do Brasileirão. Foi líder até o momento em que desandou a jogar como um timinho de várzea e, assim, por conseguinte, perder de todo mundo que apareceu na sua frente.

     Seguindo essa tradição do romance policial e do futebol, no domingo passado, apesar de não jogar porcaria nenhuma (acho até que o tal “porco” escapou de uma goleada histórica), em vez de admitir os méritos do Fluminense, o que os palmeirenses dizem é que foram escandalosamente roubados. Quer dizer: a culpa foi do “mordomo”. Ou seja, do “árbitro”!

(Publicada no site www.grandearea.com - 10 de novembro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro