Francisco Dandão
 
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Diário recente do espaço e do tempo

 
         
 

Francisco Dandão

não existe mais o tempo, muito menos o espaço. Tudo acontece de uma só vez, em todos os lugares. Num instante estamos por ali, daqui a pouco não estamos mais. Escorregamos por entre os dias como fantasmas fugindo da luz do sol e encontrarmos a boca da noite ao raiar de um novo amanhecer. A teoria da relatividade é só um borrão num caderno escolar.

     Sexta-feira, 13, com uma ou outra bruxa tentando atravessar o meu caminho (caso de um incerto Idalécio Assis, que eu prefiro chamar de Barbosinha), estive em Rio Branco, lançando o meu terceiro livro de crônicas (Trilhas Urbanas no Reflexo do Espelho), com o inestimável beneplácito da Coordenação de Cultura do Serviço Social do Comércio.

     Tudo na mais absoluta perfeição, desde o cerimonial, a cargo do Deise Leite, passando pelo show do Heloy (acompanhado pelo Écio Cunha e pelo João Veras), até aos discursos do Clodomir Monteiro, do Mauro Modesto, do Dalmir Ferreira (encarregado do posfácio do livro) e do Naylor George, pra lá de Bagdá, mas honesto e autêntico até o talo.

     Um estalar de dedos depois, já não estávamos no Sesc. Boa parte dos amigos que participaram do lançamento foi espantar o calor e calar a fome no Boteco, empreendimento do meu filho Igor, coladinho ao jornal O Rio Branco. Quase ao mesmo tempo, um espaço diferente. Muita gente bonita sorrindo do meu chapéu coco, enquanto o Bob Ney dedilhava o seu violão.

     Manoel Façanha, fotógrafo oficial do evento, descobrindo ângulos inusitados, encheu a memória da sua câmera Sony. E mais uma vez subverteu as leis naturais do tempo e do espaço, publicando tudo no jornal do domingo. O fato virou notícia e vai permanecer à disposição de cautos e de incautos nos bancos digitais e nos arquivos das bibliotecas públicas.

     Meus olhos piscaram e lá se foram dois dias. Domingo no Parque, calor de um forno microondas ligado desde o século passado. Enquanto almoçava uma rabada no tucupi, o proprietário do restaurante Bambu, caro amigo Cleber Cara Rachada, me dava um carão por não ter recebido convite para o lançamento. Mas ameaçou comprar vinte exemplares.

     Na terça, 17, em São Paulo ouvi as tribos da rua Augusta misturando seus sexos latentes e uivando suas dores e seus amores para uma lua escondida atrás de um arranha-céu. Na quarta, o Fluminense passava por cima dos facínoras do Cerro Porteño, enquanto o Palmeiras naufragava no pampa gaúcho. Na sexta, 20, Pelé comemorou 40 anos do milésimo gol.

     Não existe mais tempo, nem espaço. E eu não tenho nenhuma certeza do lugar onde estou agora. Muito menos se fui mesmo a algum lugar ou, caso tenha ido, se já voltei de lá. O que eu sei é que o Barbosinha (leia-se, Idalécio) vai continuar a procurar o pé e a cabeça deste texto. O pé ele pode até encontrar. Já a cabeça, essa ele só encontra se for contorcionista.

(Publicada no jornal O Rio Branco - 24 de novembro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro