Francisco Dandão
 
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Independência e São Chico: infeliz ano novo!

 
         
 

Francisco Dandão

para mim, janeiro é o melhor mês do ano. O mês em que toda criatura fica esperando que o ciclo em curso seja melhor do que aquele que recém findou. E é o mês, agora falando de forma bem particular, em que eu costumo me mandar para a bela e aprazível Fortaleza, capital do Ceará, onde uma rede de algodão me espera de braços, pernas e varandas abertas.

     Um mês inteiro de papo pro ar, devorando todos os livros que não puderam ser devorados nos onze meses anteriores, vendo (ou revendo) todos os filmes que não puderam ser vistos (ou revistos) no mesmo período, bebendo todas as cervejas que não puderam ser bebidas, caminhando na beira-mar contra (ou a favor) do vento... Maravilha de bom!

     Tudo, entretanto, sem perder de vista o mundo ao redor. E então, para manter as antenas ligadas nesse tal dito mundo, é que, entre um cochilo e outro, depois de um par de horas torrando os miolos no sol inclemente da Praia do Futuro, me dedico à navegação pelas ondas nem sempre plácidas do universo virtual. Janelas abertas na tela do computador.

     Assim, mesmo nesse ambiente perfeito de nada fazer (o ócio, confirmando o sociólogo Domenico de Masi, também pode muito bem ser criativo), eu sou compelido a escrever essas mal traçadas, por conta da notícia que li nesta terça-feira (5), nas páginas de O Rio Branco, de que São Francisco e Independência não disputarão o campeonato acreano de 2010.

     Surpresa total da minha parte, tanto num caso como no outro. Independente dos motivos que o levaram ao atual estado de inanição financeira, o Independência, com toda a sua grandeza e a sua tradição, apesar das péssimas campanhas nos últimos anos, não podia fazer isso com os seus admiradores. Não é nada justo com a sua apaixonada torcida.

     E além do mais, num momento de trauma como esse de licenciamento de uma equipe tão querida dos acreanos, onde andam os tantos homens públicos que, até muito pouco tempo atrás, juravam amor eterno ao glorioso tricolor do Marinho Monte? Em que buraco de avestruz eles escondem suas cabeças? Sumiram todos, assim tão de repente? Hein?

     Quanto ao São Francisco, ainda que se tratando de um time pequeno, praticamente sem torcida e sem nenhum mecenas que se responsabilize por algumas das suas despesas, mesmo nesse caso, pelos anos em que o clube católico heroicamente se fez presente, é lamentável vê-lo abandonar a luta. A retirada me soa como um vilipêndio à memória de Vicente Barata.

     Cada um desses clubes que abandona o campeonato acreano leva para o esquecimento a história de um sem número de abnegados que doaram o seu tempo, a sua energia e o seu coração à causa do futebol local. E o pior de tudo é que, mesmo o afastamento sendo temporário, fica a sensação de que eles nunca mais reunirão forças suficientes para voltar...

(Publicada no jornal O Rio Branco - 6 de janeiro de 2010)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro