Francisco Dandão
 
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O flagelo da violência

 
         
 

Francisco Dandão

o mundo anda por demais estranho. De certa forma, parece que tudo está meio que ficando de cabeça para baixo. A terra treme no Haiti, as nuvens não se cansam de derramar suas cargas d’água em São Paulo, os termômetros não param de subir no Rio de Janeiro... Em qualquer esquina, basta espremer o pensamento que o sangue se dana a esguichar sem parar.

     O futebol, que é parte integrante (e essencial, eu diria) da vida, parece seguir a tendência. Ninguém tem a menor tolerância com o seu próximo. Prova inconteste disso foi a goleada que o glorioso Cruzeiro das Minas Gerais disparou sobre os bolivianos no meio da semana. Sete a zero sem dó nem piedade. Massacre de cristão em dia de circo romano...

     Os habitantes das alturas andinas não sabem até agora qual foi o bicho que os mordeu. Ninguém teve nem tempo de anotar a placa do caminhão que os atropelou. Como na história do inconfidente mineiro, eles foram enforcados, esquartejados e os seus pedaços ainda foram espalhados em praça pública. O chá de coca deles não fez efeito na planície alterosa.

     Manoel Façanha, meu editor, explica que o problema dos bolivianos nesse jogo contra o Cruzeiro foi “falta de gás”. Não concordo com a explicação. Gás é o que não falta para os patrícios, depois que o presidente Evo Morales nacionalizou os serviços da Petrobras. Pode ser que eles não tenham achado necessário trazer uma grande reserva. Mas, faltar, jamais!

     A violência envolvendo futebolistas, porém, é bom que se diga, não tem se resumido às escaramuças dentro do campo. Se no perímetro das quatro linhas o negócio já é lamentável, fora delas nem a polícia consegue dar jeito. O paraguaio Cabañas, gordinho que um dia fez chorar a torcida do Flamengo, em pleno Maracanã, é a mais recente vítima desse flagelo.

     O cara, simplesmente, levou um balaço no crânio, disparado por um desafeto. Depois de enfrentar tantos zagueiros raivosos, o artilheiro da terra de Solano Lopez jamais imaginaria que uma prosaica ida ao banheiro poderia render-lhe tanta “dor de cabeça”. Coisa de louco. No México, não se pode mais nem tirar a água do joelho sem sobressaltos. Simples assim.

     Tudo isso, ainda sobre essa questão da violência desmedida que toma conta do mundo, tanto faz se por conta de fenômenos naturais ou por iniciativa humana, sem falar (mas já falando) daquela história do ônibus da seleção de Togo, metralhado quando se dirigia para uma das sedes da Copa Africana. Barbárie da pior espécie. Total e absolutamente injustificável!

     É isso. Tô ligado. Voei do Ceará para o Acre especialmente para assistir ao jogo do Juventus contra o Atlético Mineiro, originalmente marcado para o dia 10 deste mês de fevereiro. No meio da semana fiquei sabendo que o confronto foi adiado para o dia 24. Nesta data estarei em São Paulo. Sinto que alguém violentou o meu bolso. Vou reclamar ao bispo!

(Publicada no site www.grandearea.com - 5 de fevereiro de 2010)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro