| O desatino da paixão | ||||
| Francisco Dandão
Domingo passado eu tive mais uma vez a prova desse amor do torcedor, quando, no final do feriadão da Semana Santa, zanzando pelas ruas da vizinha Montevidéu, resolvi enfrentar um frio cortante de dez graus (o vento fazia parecer mais frio) e dar um pulinho lá no lendário Estádio Centenário, numa das extremidades da espaçosa Avenida 18 de Julho. Causou-me desconforto o estado deplorável daquela catedral do futebol que tantas conquistas já aninhou em seu interior com a Celeste Olímpica, desde os tempos heróicos de Obdúlio Varela (o capitão daquele time que fez o Brasil chorar na Copa de 1950). Arquibancadas sujas e caindo aos pedaços, gramado de péssima qualidade. Futebol chinfrim! Nas arquibancadas, porém, a torcida do Peñarol, formada em grandes proporções por mulheres e crianças, vibrava como se estivesse participando da finalíssima de um confronto mundial. Em nenhum momento ela calou o seu canto de louvor aos ídolos, muito menos o rufar dos seus tambores desafinados. Menos mal que o seu time venceu fácil o adversário Cerrito. De volta ao Brasil, presencio mais duas demonstrações desse amor extremado do torcedor pelo seu time do coração. Primeiro, na quarta-feira, com o Corinthians no papel de personagem principal, lutando por uma vaga nas finais do Paulistão. Depois, já na quinta-feira, dia seguinte, com o Flamengo, lutando por uma sobrevida na Copa Libertadores da América. No caso do Corinthians, embora o time não dependesse só de si para passar às semifinais da competição referida, embora a noite fosse tão fria quanto aquele domingo que eu vivi em Montevidéu, embora uma garoa teimasse em cair sem trégua, embora o jogo estivesse marcado para quase dez da noite, milhares de fanáticos congestionavam a frente do Pacaembu. No caso do Flamengo, mais drama ainda. Mesmo com o Rio de Janeiro afogado pela água inclemente que descia dos céus há uma semana, mesmo com a lama escorrendo das encostas dos morros que circundam a cidade, mesmo com a frieza da estatística indicando um número absurdo de vítimas, ainda assim muita gente se fez presente ao templo do Maracanã. Numa frase do Marquês de Xapuri (é assim que ele se autodenominava) Armando Nogueira, recém encaminhado ao reino dos céus, predestinado da palavra exata que sempre soube ser, talvez a síntese desse torcedor que não abandona por nada o objeto do respectivo culto: “O futebol não é nada sem o delírio, sem o doce desatino da paixão”. (Publicada no site www.grandearea.com - 9 de abril de 2010) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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