Francisco Dandão
 
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  Vida longa aos goleiros  
         
 

Francisco Dandão

até uns poucos anos atrás, jogar de goleiro, aqui no Brasil, era uma espécie de maldição. Nas peladas de rua ou dos campinhos de várzea, só ia para o gol aquele sujeito que não possuía nenhuma aptidão com a bola nos pés. E mesmo assim, a criatura escalada para a nefasta posição ainda relutava, reclamava, xingava as mães dos amigos... Um verdadeiro horror!

     De um modo geral, mesmo que a intimidade com a bola fosse praticamente zero, o que todo mundo queria era jogar no ataque. De preferência no comando do ataque. Ou então, na ponta-direita. No máximo, numa hipótese já não muito agradável, a meninada admitia o desejo de jogar no meio-campo (“na meiuca”, como se dizia na gíria da época).

     As camisas dez e sete, certamente por conta dos mitos Pelé e Garrincha, gênios até hoje insuperáveis, eram disputadas quase a tapa. Assim, criou-se uma espécie de código: menino que jogasse com o número dez às costas, esse era o craque do time. Já o que vestia a camisa sete, certamente era uma grande promessa de driblador. Atenção para eles!

     Nem todas as promessas se consumavam, é certo. Nos meus muitos anos de janela, vi vários desses garotos que vestiram as camisas dez e sete que jamais conseguiram se firmar como grandes jogadores. Jogavam pra caramba nas divisões de base, mas não conseguiam manter o desempenho quando eram promovidos ao “time de cima”. Perdiam-se pelo caminho.

     Nada disso, desse fracasso de alguns, porém, impedia os que vinham depois continuarem sonhando com as camisas cobiçadas. Fazer gols, muitos gols, era o anseio de qualquer um. Ninguém queria dar uma de anti-herói. As manchetes de jornais eram feitas de artilheiros. Ser goleiro, jamais. Evitar gols contrariava a essência do futebol, brecava a alegria.

     Além de tudo isso (os mitos e as manchetes), ou por conta disso mesmo, havia uma nefasta tradição de goleiro ruim por essas bandas. Salvo as exceções de praxe (Gilmar, Manga, Castilho etc.), dificilmente alguém manifestava confiança num goleiro brasileiro. Tão maldito o sujeito que jogava na posição que até a grama se recusava a nascer sob os seus pés!

     De um tempo pra cá, entretanto, eu não saberia explicar exatamente os motivos, tudo mudou. De maldito, o goleiro passou a ser charmoso. Intocável dentro da sua pequena área, elegante no seu uniforme diferente de todos os outros contendores, ao goleiro brasileiro também se passou a dar o crédito pelas vitórias. Alguns hoje são até chamados de santos (!).

     Já existe até goleiro artilheiro. Rogério Ceni, do São Paulo, que não me deixe mentir. Já fez mais gols na carreira do que muito atacante metido a besta. E mais: o nosso goleiro já virou até produto de exportação. “Made in Brazil”. Taffarel abriu o caminho, depois de defender pênaltis em Mundiais. Júlio César faz fama e fortuna nos campos da Itália. Alvíssaras!

     Vida longa a todos os goleiros brasileiros neste dia 26 de abril!

(Publicada no site www.grandearea.com - 24 de abril de 2010)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro