Francisco Dandão
 
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  O pênalti não é mais irmão do gol  
         
 

Francisco Dandão

quando nas peladas de infância e adolescência acontecia um pênalti a favor do meu time, eu adorava ser o encarregado da cobrança. Mas não era fácil obter essa primazia. Todo mundo queria chutar a bola ali da chamada marca fatal. Na cabeça de todos, era a grande chance de figurar na artilharia. Afinal, o pênalti, se dizia na época, era irmão legítimo do gol.

     Depois de muita discussão, escalado o batedor, era a vez de o dito cujo botar a bola debaixo do braço e dirigir-se ao local da cobrança. Aí vinha o segundo problema. Invariavelmente, no local onde a bola deveria ficar havia um buraco (cavado pelos adversários). O batedor queria botar a bola fora do tal buraco, enquanto os penalizados não queriam permitir.

     Fazer a cobrança com a bola dentro do buraco era um inferno. Tanto o chute podia sair mascado, sem a força necessária, facilitando a tarefa do goleiro, como a bola podia ganhar muita altura, dada a necessidade do batedor compensar a deficiência do terreno. De qualquer forma, porém, as chances do cobrador eram sempre muito maiores do que as do defensor.

     Apesar de ainda ser um tempo onde não existiam estudos científicos de como bater ou como defender o pênalti (pelo menos, não que eu saiba até hoje), já existiam as teses, ao que me consta, desenvolvidas empiricamente, de acordo com a experiência acumulada nos campos de futebol, fossem eles na várzea suburbana ou nos templos mais gabaritados.

     As principais teses dos cobradores eram duas. Primeira: escolher um canto (podia ser superior ou inferior), se concentrar naquele alvo e bater com convicção. Segunda: fechar os olhos e dar uma pancada sem dó nem piedade. Já do ponto de vista dos goleiros, o que a maioria entendia era que deveria escolher um lado e saltar com toda a força das próprias pernas.

     No mais das vezes, mesmo que as teses não estivessem devidamente apoiadas por evidências científicas, os artilheiros levavam vantagem e davam razão aos que acreditavam no parentesco entre o pênalti e o gol, conforme eu disse lá no primeiro parágrafo. A torcida até comemorava o gol antecipadamente, assim que o árbitro assinalava a penalidade máxima.

     Nos tempos atuais tudo mudou. Existem estudos sérios dizendo qual o melhor jeito de cobrar o pênalti e estudos igualmente sérios dizendo qual o melhor jeito de defendê-lo. Com tantos estudos, já não se pode dizer que o pênalti é irmão do gol. Mais aplicados do que os artilheiros, os goleiros se transformaram em barreiras quase intransponíveis. Estão pegando tudo!

     Provas disso que eu estou afirmando? Duas provas recentíssimas: São Paulo e Universitário, pela Taça Libertadores, na quarta-feira, quando Rogério Ceni defendeu duas penalidades; Atlético Goianiense e Palmeiras, na quinta-feira, quando os goleiros Marcos e Márcio pegaram seis das dez cobranças. É isso. O pênalti e o gol já não pertencem à mesma família!

(Publicada no jornal O Rio Branco - 9 de maio de 2010)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro