| Planeta Jabulani | ||||
| Francisco Dandão
Nas histórias do chamado “homem-macaco”, saídas da imaginação do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs, o principal meio de comunicação dos nativos da África misteriosa era o som dos tambores tribais. Qualquer mensagem que se quisesse transmitir à distância era só chamar o ritmista de plantão e mandar ver. O vento fazia o resto do serviço. Cerca de cinqüenta anos depois, tudo isso faz parte tão somente de pequenos fragmentos de memória guardados em algum lugar dos corações de senhores de cabelos embranquecidos, assim como os meus. O grito do Tarzan foi devorado por algum provedor de internet e os tambores africanos deram lugar ao som das indefectíveis a animadas vuvuzelas. Quem assistiu a abertura da Copa do Mundo, nesta sexta-feira (11), sabe muito bem do que é que eu estou falando. O olhar devassador das câmeras de televisão não mostrou um único tambor marcando o compasso da festa. Mas as vuvuzelas, essas não deixaram nenhum membro das duas comissões técnicas passarem instrução alguma. Um zumbido ensurdecedor! No que diz respeito ao jogo, que é isso o que de fato interessa, me peguei cruzando os dedos e fazendo figa cada vez que os mexicanos rondavam a área dos sul-africanos. Da mesma forma, me surpreendi chutando uma bola imaginária, ou fazendo um movimento típico de uma cabeçada, cada vez que a bola chegava perto do nanico goleiro do México. Entre o quase centenário Nelson Mandela, prêmio Nobel da Paz, e o antigo imperador asteca Montezuma (cujo nome é associado atualmente a uma terrível dor de barriga que ataca os turistas no México), me pareceu claro por qual dos lados eu deveria roer as unhas e derramar a minha adrenalina. Durante noventa minutos eu fui sul-africano desde criancinha. E eu vou falar uma coisa pra vocês que me acompanham nesse instante aí na frente da tela do computador: a África do Sul, sob o comando do nosso conhecido Parreira, jogou como gente grande. Os mexicanos tiveram uma sorte danada de não levar uma pancada logo na estréia. Pra mim, os caras encontraram um empate quando tudo já lhes parecia perdido. É isso. Tem mais um mês de Copa pela frente. E no rolar dessa Jabulani planetária, tem também muita unha pra roer, muita vuvuzela pra ensurdecer o ouvido e muita, muitíssima, adrenalina para ditar o compasso do coração. Que vença o melhor... Quer dizer: desde que esse melhor não seja a Argentina. Ver o Maradona nu? Nem no pior dos piores pesadelos! (Publicada em www.grandearea.com - 11 de junho de 2010) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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