Francisco Dandão
 
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  Debates e decisões  
         
 

Francisco Dandão

fiquei no maior dilema na noite dessa recente quinta-feira (5). Desde vários dias atrás (dias para frente só nos filmes de ficção científica, né mesmo?) anunciava-se para o mesmo horário dois espetáculos imperdíveis na televisão: o debate dos presidenciáveis, na Rede Bandeirantes, e o jogo da Copa Libertadores, entre São Paulo e Internacional, na Rede Globo.

     Depois de alguma reflexão, acabei entendendo que seria melhor assistir ao debate. Afinal, pensei, esse jogo da política se configura bem mais sério do que o de alguns sujeitos maltratando uma bola. Da decisão das urnas depende o que vai ser a vida nos próximos anos. Decidir pelo errado é correr o risco de ficar chorando por um longo tempo depois...

     E assim, panela de pipoca nas mãos e guaraná sobre o criado mudo, depois de uma canjinha preparada pela D. Maria de Nazaré, a título de jantar, concentrado até o “úrtimo” para degustar (esse cara também só pensa em verbos que remetem a comida e bebida, né não?) o debate, resolvi tirar o telefone da tomada, pra não perder nem o suspiro dos candidatos.

     Quinze minutos (talvez nem isso) de melhorias para a educação, saúde, segurança, família, propriedade, polidez e excessivos salamaleques de parte a parte dos debatedores foi o máximo que eu pude agüentar. Comparado com um jogo de futebol, o debate parecia um amistoso. Todo mundo tirando a canela, evitando bolas divididas, nem sinal de algum suor.

     O debate me pareceu tão sem graça que eu cheguei a ter saudade (peço perdão pela minha fraqueza) das performances dos falsos técnicos Dunga e Maradona nas suas entrevistas durante a Copa do Mundo. Aquilo sim é que era espetáculo, não pude deixar de pensar. Protagonistas da “pior” espécie, mexendo fundo com as nossas mais profundas depressões!

     E então, pelas artes do tédio e do desgosto (haverá alguém mais bonito do que eu, espelho meu, que possa trazer de novo a esperança de que o país do futuro poderá se materializar num dia do nosso presente?), eis que, um toque no botão do controle remoto me levou a um show de verdade: São Paulo e Inter enchendo a tela no ritmo de múltiplos corações!

     O time paulista, com três atacantes, lembrava a era romântica do futebol, quando se pregava amplamente a tese de que a melhor maneira de se defender era atacando o adversário, e dava a impressão que mais uma vez o Tricolor do Morumbi chegaria ao paraíso. Mas era só impressão. Ao paraíso apenas um poderia chegar. E os gaúchos tinham a mesma intenção.

     Sexta-feira, manhã seguinte aos dois espetáculos, uma rápida olhada no noticiário demonstra como, no final das contas (e apesar de tudo), a vida continua. O Inter se prepara para o Mundial de Clubes, enquanto o São Paulo fala em fazer boa campanha no Brasileirão para voltar à Copa Libertadores. Já os candidatos, todos eles garantem que venceram o debate!

(Publicada no jornal O Rio Branco - 8 de agosto de 2010)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro