| Dalmir Ferreira : "A grande mãe da inspiração é a memória" |
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Publicada no Jornal Página 20, de 4 de maio de 2003 |
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Francisco Dandão
Nascido no seringal Bom Destino, nas proximidades da cidade de Porto Acre, Dalmir revelou cedo a sua tendência para o exercício das tintas e dos pincéis. Já aos 10 anos, seu pai, o guarda-livros Djalma Ferreira, percebendo o talento do garoto, mandou-o estudar em Manaus. De volta ao Acre, em meados dos anos 70, Dalmir participou de todos os movimentos de arte de que se tem notícia no Estado, destacando-se entre estes a "1ª Exposição Acreana de Artes Plásticas", em 1978, com a participação de 30 artistas, e a criação do "Museu Acreano de Belas-Artes", em 1992. Paralelamente, entre uma pausa e outra da atividade de artista plástico, Dalmir estudou agrimensura e história, cursos que o ajudaram a formar um senso crítico refinado, principalmente no que diz respeito às políticas de dominação cultural e econômica postas em prática pelos detentores do poder. A seguir, os principais trechos de uma entrevista com o Dalmir, concedida com exclusividade ao Página 20 por conta da comemoração do Dia do Artista Plástico, neste 8 de maio. O que significa ser artista plástico? O artista plástico, na nossa modernidade, aqui na região, é muito pouco conhecido. Mas, o artista plástico é uma das mais antigas figuras que acompanha a humanidade e através dele é que se teve o primeiro acesso à história do mundo, em intensidade muito maior do que aquela representada pela própria escrita. O artista plástico nos legou a história do homem de um período de antes da escrita. Eu diria, inclusive, que o artista plástico é um injustiçado pela modernidade. Que injustiça seria essa que os artistas plásticos sofrem na modernidade? A arte, de uma maneira em geral, atravessa um momento de adequação e eu entendo que ela não existe para se adequar a tempo nenhum. Adorno e Walter Benjamin falam do apossamento que a modernidade do capital impôs à arte, transformado-a numa mercadoria. Embora o homem também passe por esse processo de transformação em mercadoria, no meu entender a arte não deveria passar por isso. A grande injustiça, então, é essa tendência moderna de transformar a arte em mercadoria. E essa história de um dia dedicado ao artista plástico, isso pode servir para alguma coisa, pode ter alguma significação positiva? Os recursos utilizados pelo estado moderno em termos de comunicação são bem interessantes, as intenções são bem interessantes. Agora, a maneira como isso acontece é que pode ser condenável. Por exemplo, eu estava numa certa ocasião em Brasília e pude assistir numa comemoração do Dia Nacional da Cultura uma série de eventos programados pelo Ministério da Cultura e, de fato, foi um apossamento saudável. Agora, aqui na região Norte, o Dia do Artista Plástico ainda não tem a significação que deveria ter. E, na verdade, pouca gente conhece alguma coisa sobre o artista plástico ou, muito menos, sobre o dia dedicado a ele. Essa é uma data em que o Estado deveria trazer para o povo um conhecimento mais aprofundado a respeito do tema. Como andam as artes plásticas neste momento no Acre? Trinta anos depois de despertar, eu diria que as artes plásticas no Acre encontram-se num momento de estagnação, por falta de observação do seu principal fundamento, que é a educação. O homem só evolui pela educação. As artes plásticas aqui no Acre remontam há 30 anos, mas por inobservância do fator educacional nós, de certa forma, estamos aguardando que isso aconteça. Não existe outro caminho, eu não conheço outro caminho. Na história da arte e da cultura de qualquer lugar, eu desconheço algum tipo de evolução que não tenha acontecido via educação. Quanto à criação de um curso de graduação em artes, explique quais seriam os principais motivos para um empreendimento dessa natureza e em que pé está o projeto. No começo deste ano, o reitor Jonas Filho, da Universidade Federal do Acre, nomeou uma comissão para analisar e propor a criação de um curso de graduação em artes. Isso é muito importante porque vem corrigir uma distorção que data da criação dos primeiros cursos de graduação no Estado, nos anos 60. Isso porque já naquele tempo o ensino da arte era obrigatório nos ensinos de primeiro e segundo graus. Apesar disso, os nossos primeiros cursos superiores no Acre, em plena efervescência do regime militar, se voltaram basicamente para o atendimento de uma elite, vide direito e economia, por exemplo. Enquanto isso, os anseios da população, que se voltavam para uma faculdade de filosofia, foram colocados em segundo plano. A criação de um curso de artes, então, no meu entender, vem em boa hora corrigir o que eu chamaria de distorção histórica. Não adianta se construir museus, galerias, etc. se a população não está educada para desfrutar desses espaços. Um curso de artes é o artifício certo para dar esse preparo. A criação do curso está em andamento e a comissão espera ter uma proposta pronta até o meio do ano. Pessoalmente, excluindo-se os projetos coletivos, o que o artista plástico Dalmir Ferreira está pensando em fazer nos próximos tempos? Essa pergunta me faz lembrar um filósofo amigo meu, o seu Gregório. Ele diz que chega um momento na vida do homem que cessam os investimentos a longo prazo. Eu não tenho mais nenhum investimento de longo prazo. Todos os meus investimentos agora são de curto prazo. A minha idade de projetos de longo prazo já venceu. Então, o que eu penso em fazer dentro de muito pouco tempo, é me recolher ao meu ateliê para me dedicar à pesquisa dentro das artes plásticas. Pintar hoje já não me atrai tanto quanto raciocinar, teorizar, talvez escrever textos ensaísticos sobre o fenômeno. O meu objetivo agora não é mais fazer coisas para mostrar aos outros. Creio que eu ando entrando numa fase mais introspectiva, querendo muito mais mostrar para eu mesmo do que para os outros. De onde é que sai a matéria-prima do artista plástico? Eu diria que a grande mãe da inspiração é a memória. E, junto com a memória, o conhecimento. Eu acho que esses dois são os fatores essenciais. Eu acredito que um homem de muito conhecimento é, por si só, um artista. E isso ele não vai obter exclusivamente na escola, ele já traz dentro de si quando nasce uma memória pessoal muito forte, sendo que a vida dele acaba se tornando um exercício de lembranças e de raciocínio dentro da memória. E no caso específico do Dalmir Ferreira, no início ele se espelhou em alguém? Eu era muito novo quando demonstrei alguma habilidade, num tempo em que os mais velhos costumavam chamar isso de dom. E, justamente por esse dom, além de uma intervenção do meu pai, que foi a primeira pessoa que percebeu essa coisa, eu fui fazer um curso de artes por correspondência. A partir desse curso é que eu comecei a desenvolver as primeiras técnicas de desenho. Destacando que os professores eram os melhores artistas brasileiros da época. Em seguida, a partir daí, eu passei a me interessar por tudo o que dizia respeito a arte. Só de Leonardo da Vinci, por exemplo, eu devo ter lido pelo menos umas cinco biografias escritas por autores diferentes. Então, por conta disso, se eu tiver que reconhecer um personagem em quem eu me inspirei para tocar para a frente foi, sem dúvida, Leonardo da Vinci. O que o garoto deve fazer aqui no Acre se quiser desenvolver o seu talento? Na área de artes visuais, nós temos várias escolinhas. O Sesc, entre outros, desenvolve um bom trabalho nesse campo. Agora, eu diria, dependendo do grau de dedicação que o garoto tiver, para desenvolver o seu dom, encontrará alguns artistas que se disporão a auxiliá-lo. Mas eu advirto que os garotos não devem se restringir a pensar que arte é saber desenhar, saber materializar na tela uma pintura. Arte, na sua essência, passa bem longe disso. Arte é, principalmente, um aprofundamento teórico, onde pintura e desenho só refletem o muito que o estudo e a pesquisa proporcionaram. Ou seja, o candidato a artista tem que ser extremamente zeloso do seu desenvolvimento intelectual. É interessante que se tenha consciência que a pintura não representa muita coisa se for tomada como atitude isolada. |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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