| Crescêncio Santana conta sua trajetória do seringal ao asfalto |
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Publicada no Jornal da Ufac, de dezembro de 2006 |
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Francisco Dandão
Os 16 primeiros advogados formados no Acre foram os seguintes: João Crescêncio de Santana, Foch Jardim (falecido), Omar Sabino de Paula, Alberto Barbosa da Costa, Levy Cervantes Saavedra (falecido), Mário Izídio dos Santos, João Eremith de Souza (falecido), Manoel Alves Cacela, Manoel Ribeiro do Nascimento (falecido), Giocondo Maria Grotti (então Bispo do Acre e Purus - falecido), Ary Rodrigues (secretário de Saúde à época - falecido), Demétrio Câmara de Arruda, Maria Ferreira Martins, João de Oliveira Paiva (falecido), Antônio da Costa Gadelha (falecido) e Raimundo Alves Dias (falecido). O Jornal da Ufac ouviu durante um par de horas um remanescente dessa primeira turma, o doutor João Crescêncio Santana, amazonense de 73 anos, nascido no seringal Arapixi (proximidades de Boca do Acre), que chegou em Rio Branco em plena adolescência, no ano de 1949, tornando-se com o passar do tempo membro da Academia Acreana de Letras (cadeira nº 16), vencedor do primeiro festival de música do Acre e pai de sete filhos (Rosemir, Roberto, Gildeth, Resende, Ailton, Marília e Maria do Socorro), frutos do seu casamento com D. Maria Bezerra de Santana. Confira abaixo os principais trechos da conversa. Crescêncio, por favor, fale da sua trajetória, desde o seringal até a cidade... A minha vinda para a cidade, eu diria, aconteceu por circunstâncias diversas, quando eu já era adolescente. Minha mãe já era falecida quando eu resolvi deixar para trás irmãos e sobrinhos. Pulei na popa de uma canoa, desci o rio Purus e depois subi o rio Acre, num período de cheia dos caudais da Amazônia. Remei durante doze dias, mas consegui chegar a Rio Branco são e salvo, graças ao beneplácito do Altíssimo Javeh, Deus de Balaão. Foi muita luz, quase ceguei, mas, enfim, cheguei, estudei me formei e, de lá para cá, só diante de um mundo muito grande de fantasia, no qual me encontro envolvido até hoje. Tudo bem... É mais ou menos isso sobre a minha chegada aqui. Sobre o curso de Direito... Por que as autoridades locais entenderam que era interessante criar justamente esse curso superior? Foram circunstâncias diversas. Quando o Acre era Território, tinha uma existência muito apagada, cheia de dificuldades peculiares, sendo uma delas a de que as pessoas qualificadas que vinham de fora assumir funções de destaque não paravam muito por aqui. Logo que podiam, se retiravam, iam embora, voltavam para as suas origens. A falta de pessoal qualificado foi, durante muito tempo, fator de dificuldade para os administradores locais. Então, em 1962, elevado o Acre à categoria de Estado, passou a ser um sonho da juventude um curso superior, porque as pessoas terminavam o segundo grau e ficavam sem poder dar prosseguimento aos seus estudos. Só os filhos das autoridades é que podiam continuar estudando em outros centros. Por intermédio do professor Omar Sabino de Paula, que era um dos nossos deputados constituintes, foi elaborado, então um decreto, criando o curso de Direito, que era a formação que ensejava condições, dado o número de juízes, desembargadores e advogados que aqui existiam e que poderiam atuar como professores. E as dificuldades, quais eram e como vocês as enfrentavam? As dificuldades eram inúmeras. E eu posso falar isso de cátedra porque eu fui a primeira pessoa convidada para trabalhar na implantação do curso de Direito, pelo doutor Jersey, que foi na minha casa e me fez a devida convocação. Eu trabalhava na Secretaria da Saúde, mas o doutor Jersey deu um jeito de me colocar à disposição da nova empreitada. O local que nos foi destinado para começar os trabalhos foi o prédio da Escola Normal Lourenço Filho, onde hoje funciona o Cerb [Colégio Estadual Rio Branco]. Em princípio, não havia sala para a gente se alojar e nós passamos uma semana trabalhando na ponta do corredor da escola. Mas depois deu tudo certo. Eu e o doutor Jersey entramos juntos e saímos juntos da Faculdade de Direito, desde a sua criação até a sua transferência para a Universidade Federal do Acre. Eu vi e vivi a história... Se não sou agente, sou testemunha! O que te motivou para cursar Direito? Você tinha vocação ou foi por falta de opção mesmo? Eu acho que foi um pouco pelas duas coisas. Quando o doutor Jersey me convidou para trabalhar na implantação do curso, eu já havia concluído a Escola Técnica de Comércio Acreana e entendi que não poderia ficar de fora do processo. Se logo eu, que trabalhava com o homem e estava habilitado para ingressar no curso superior, não me interessasse então quem se candidataria? Além do mais, eu já tinha uma vocação natural para fazer poesia, música escrever, coisas que caracterizam uma tendência para a área jurídica. Eu acho que houve uma mistura em doses certas de vocação com falta de opção. Os primeiros professores do curso de Direito do Acre, você lembra os nomes deles? Os professores, eu me lembro de todos. Totalizavam um número de dez. Anote aí. Jersey de Brito Nunes, Lourival Marques de Oliveira, Fernando de Oliveira Conde, esses três o grande triunvirato de força para a criação, implantação, reconhecimento e federalização do curso de Direito do Acre. E tinha, ainda, Jorge Araken Faria da Silva, Yacut Aiache, Paulo Polly Nepomuceno, Manoel Antônio Álvares da Cruz, Alberto Guadanini Zaire, Aury Félix de Medeiros e Manoel Franco Neves. Dos formados na primeira turma, alguém seguiu carreira nos tribunais? Quase todos. Eu mesmo advoguei durante dez anos, assessorado pelo nosso digníssimo presidente da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], Adherbal Maximiano Caetano Correa. Parei quando passei a exercer cargos de confiança no Governo. No Governo do professor Francisco Wanderley Dantas eu fui Diretor de Polícia Judiciária, cargo que só deixei no meio do Governo do professor Geraldo Mesquita, o Barão. Aí fiz concurso para a Advocacia Geral da União [AGU], passei e hoje sou aposentado no quadro da citada entidade, Classe Especial, Letra A. Um dos elementos da primeira turma, João de Oliveira Paiva, chegou, inclusive, a exercer o cargo de juiz. Durante o curso, enquanto aluno, você teve alguma participação especial? Eu logo nos primeiros dias me elegi presidente do Diretório Acadêmico. Fui eleito, reeleito e aclamado, só saí porque quis. No período de presidente do Diretório fundei um jornal intitulado Folha Acadêmica, do qual cheguei a imprimir dezoito números, todos com papel-espelho, além de trazer para reuniões de intercâmbio estudantes da Universidade do Amazonas, que apresentaram aqui uma peça chamada Toda donzela tem um pai que é uma fera. Em contrapartida, eles me levaram depois para Manaus, onde passei cerca de vinte dias e conheci toda a estrutura do ensino superior amazonense. Eles me levaram até para conhecer a cúpula do Teatro Amazonas. Foi uma festa, um verdadeiro sucesso. Permaneci como aluno e funcionário durante cinco anos, quando o curso passou a fazer parte da Universidade. Nesse momento, o doutor Jersey disse: - Crescêncio, acabou nossa missão. Eu vou para o meu lado e você vai para o seu! A criação do curso de Direito coincide com a implantação do regime militar no Brasil. Havia algum tipo de interferência por parte dos militares? É verdade que havia um certo monitoramento por parte dos militares com relação a alguns alunos, o bispo D. Giocondo, por exemplo? Realmente, houve um período que nós passamos por essa pressão. Para se ter uma idéia, quando o Ministério da Educação designou a primeira vistoria para o reconhecimento da Faculdade de Direito, fato que aconteceu em 1966, nós recebemos um expediente dizendo que a comissão chegaria trinta dias depois. O doutor Jersey convocou-me para uma reunião e traçamos a estratégia para deixarmos tudo nos conformes, para que não houvesse problemas quando a tal comissão chegasse. Mas, veja bem como as autoridades agiam no período autoritário... Chegava a ser tragicômico... A comissão que deveria chegar em trinta dias, já estava no Palácio quando nós recebemos o expediente. No fim da manhã em que chegou o tal documento, quando eu e o doutor Jersey íamos saindo para o almoço, parou um carro preto na porta da faculdade, de onde saltaram quatro elementos, dizendo-nos: - Nós somos da comissão do MEC, deixem a chave com a gente e podem ir embora. Para nossa sorte, estava tudo nos conformes. Quanto ao bispo, que eu saiba, não havia nenhum problema dos militares com ele não. Em 1994, Crescêncio, você escreveu um livro sobre a criação do curso de Direito. O que levou você a escrever esse livro, vinte e cinco anos depois de formado? O que me levou a escrever o livro Poeira Cósmica foi resgatar a história da criação da Faculdade de Direito do Acre, do ponto de vista de um dos seus últimos personagens vivos. Eu sempre achava um absurdo que, passados tantos anos, na época em que eu resolvi publicar o Poeira Cósmica, ninguém havia escrito nada a respeito da Faculdade de Direito. O próprio Dr. Jersey [Nazareno de Brito Nunes], que prestou trabalhos relevantes ao Estado do Acre, homem de uma projeção extraordinária, professor, advogado, promotor público, passou sem que lhe fosse atribuída a verdadeira importância. Para mim, a história da Faculdade de Direito, nesse tempo ao qual eu me refiro, ficou meio que perdida no espaço do mundo literário. Não havia registro literário. E, assim sendo, as pessoas que buscavam mais informações sobre essa história se obrigavam a sair procurando testemunhas. Mas, além dessa explicação sobre a minha motivação para escrever Poeira Cósmica, eu gostaria de falar um pouco sobre o que é que leva as pessoas a se dedicarem à literatura. Ora, sendo a literatura a obra de arte que se faz com a palavra escrita, ela provoca uma emoção em quem a usufrui. Há quem suponha que a literatura constitui um passatempo. Não é bem assim. Ela é também uma forma de conhecer o homem, quer como indivíduo, quer como elemento social. Os problemas humanos, os feitos de um povo, as emoções que a vida nos oferece, tudo isso se transforma em ensinamentos que levam a gente a chegar à conclusão que a literatura é vital para a nossa vida. Crescêncio, você estudou, virou advogado, exerceu cargos públicos, mas também é reconhecido no Estado como um músico talentoso, infelizmente aposentado, para o desprazer dos boêmios dos anos 50, 60 e 70. Você ganhou, inclusive, o primeiro festival de música realizado no Acre. O que te deu mais prazer na vida, ser advogado ou músico? O que eu posso dizer sobre isso é que eu me sinto uma criatura abençoada por Deus, Javeh, o Altíssimo de Balaão, porque de onde eu vim só sendo coisa do destino mesmo. Na área musical, eu posso dizer que já nasci feito, foi uma questão de vocação, herdei do meu pai. Nós éramos sete irmãos e somente dois seguiram a carreira musical, eu e o Ivo, mais novo do que eu dois anos, que morreu recentemente [outubro de 2006] em Porto Velho. Lá no seringal eu já tocava violão. Quando cheguei em Rio Branco, aprendi a tocar pistom, dominei a técnica, toquei muito, inclusive no baile de posse do governador imposto pela ditadura militar, o capitão Edgar Pedreira de Cerqueira Filho. Eu não saberia dizer o que me deu mais prazer, se ser advogado ou músico. Com a música eu nunca ganhei dinheiro e acho que quem disser que ganhou dinheiro fazendo música aqui está mentindo. Para ganhar dinheiro, criar meus filhos, eu tive que ser advogado. Então, eu acho que as duas coisas, a advocacia e a música, se completaram na minha vida. Se você pudesse dar um conselho aos jovens, o que você diria? O que eu posso dizer aos jovens é que procurem estudar bastante. Estudar de manhã, de tarde e de noite, e acabar com esse negócio de rua, lambedeira e outros vícios malucos, acabar com vida desregrada, compreender que haverá muito tempo para curtir depois de conseguir uma profissão para ganhar o seu dinheiro. No mundo de hoje, é preciso que todos se qualifiquem, sob pena de, assim não procedendo, ficarem à deriva, culpando as autoridades pela miséria. Grande parte da culpa pelo desemprego cabe a cada um, que não procura uma formação adequada para competir no mercado de trabalho. E um outro aspecto, no que diz respeito à escolha do curso, após o término do segundo grau, é o de não se deixar influenciar por pai nem mãe. Deve-se escolher a profissão obedecendo à vocação pessoal. Façam isso e depois me digam o resultado! |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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