Francisco Dandão
 
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  "O Rio Branco tem condições de formar um time de futebol para não perder de ninguém"  
         
 
Publicada no jornal Página 20, de 15 de dezembro de 2002
 
         
 

Francisco Dandão

esembargador aposentado, ex-prefeito de Senador Guiomard, ex-presidente do Atlético Acreano (de 1964 a 1968) e do Rio Branco Futebol Clube (por três mandatos: 1969/1970, 1971/1972 e 1986/1987), pescador nas horas vagas, o cidadão Lourival Marques de Oliveira , 70 anos completados no último dia 10, memória privilegiadíssima, tem uma infinidade de histórias para contar. Mas é de futebol que ele parece gostar mais de falar. E foi com a disposição de um bom narrador, bem como de lúcido analista do passado e do presente do esporte acreano, que ele recebeu a reportagem do Página 20 . Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

     Os sócios do Rio Branco acabam de eleger uma diretoria para dirigir os destinos do clube pelos próximos três anos. No seu ponto de vista, doutor Lourival, o que se pode esperar dessa nova administração?

     Primeiro que tudo, eu, particularmente, espero que eles dêem grande atenção à parte social do Rio Branco Futebol Clube, pois os sócios, eles se ressentem dessa assistência. Você veja que nós temos um parque, que se chama Parque Aquático Lourival Marques de Oliveira, nome dado pela diretoria do Edmir Borges Gadelha, o que muito me honrou, sendo que no local nós temos duas piscinas que ficaram durante anos e anos interditadas, não sei exatamente por quê. Havia também uma pequena sede campestre maravilhosa, onde aconteciam feijoadas, almoços, jantares, festinhas dançantes... É isso, então, que fazia e poderá fazer a união da família riobranquina. Hoje, os sócios do Rio Branco não têm qualquer benefício da parte do clube estrelado.

     O senhor foi presidente do Rio Branco durante três mandatos, o último deles encerrado em 1987. Passados 15 anos, olhando distanciadamente, os que se poderia destacar como as suas principais realizações frente ao Estrelão?

     Eu posso dizer com o maior orgulho que depois de terminar o meu mandato de presidente do Atlético Acreano, entre os anos de 1964 e 1968, quando eu fui substituído pelo vice-presidente do clube, doutor Adauto Brito da Frota, meu grande e pranteado amigo, certos riobranquinos resolveram me convidar para presidir o Rio Branco, o que foi para mim um motivo de grande satisfação e me causou até um certo assombro, porque nós lutáramos bravamente pelo Galo [símbolo do Atlético Acreano] e no nosso último ano por lá fomos campeões. Mas, nós pegamos o Rio Branco completamente falido em tudo. Em 1966 foi fundado o Atlético Clube Juventus e o vice-presidente do Rio Branco, o presidente era Ary Rodrigues e o vice era o velho Elias Mansour, entregou todos os jogadores para a formação do time recém-criado. De uma lapada foi o Rio Branco inteirinho para o Juventus. Só deixaram no Rio Branco o Campos Pereira, que parece que eles não gostavam, achavam que já estava velho etc., e um garoto em quem eles também não acreditavam, que tinha 15 anos e chamava-se Dadão. Foi nessa situação que eu peguei o Rio Branco, que, inclusive, tinha acabado de levar uma surra de sete a um do próprio Juventus. No dia em que eu assumi, prometi que o Rio Branco jamais perderia de alguém por um placar tão elevado. Para se ter uma idéia, nem sequer camisas o Rio Branco tinha para estrear no campeonato, o que providenciamos, mandando pintar um uniforme pelo artista Primo Líbio. Foi então, num trabalho conjunto meu e do vice-presidente José Ferraz, já falecido, que nós começamos a fazer ressurgir o Rio Branco. No segundo biênio, o Fernando Castro, que passou a ser o meu vice, conseguiu trazer do sul do país os jogadores Padreco e Fernandinho, nós conseguimos montar uma equipe poderosíssima e fomos campeões em cima do Independência. Quando nós saímos, deixamos o Rio Branco campeão do Estado. Foi uma coisa notável para quem pegou o clube no fundo do poço.

     Existe muito saudosismo nessa questão do futebol. Explique como era fazer futebol no Acre nos tempos de amadorismo.

     No tempo do amadorismo fazer futebol no Acre era empolgante. O povo comparecia ao estádio em massa, justamente porque não havia televisão, veículo que só chegou por aqui em 1974. O divertimento aos domingos era mesmo ir assistir a grandes jogos. Formaram-se, por conta disso, torcidas ferozes, organizadas, envolvidas com o dia a dia dos seus clubes. O Juventus, usando a estratégia de abrir o seu clube para o povão, arrebanhou logo uma multidão de adeptos. Ao contrário do Rio Branco, que se manteve como um clube de elite. Para ser sócio do Rio Branco era preciso preencher vários requisitos, inclusive com carta de recomendação de alguém de dentro do clube. Agora, a grande diferença do Rio Branco para os outros clubes, na passagem do amadorismo para o profissionalismo, foi que o Estrelão teve cabeça, não parou e preparou dignos sucessores para antigos presidentes. Eu diria, mesmo, que o Rio Branco só permaneceu grande dada a sua democracia. Nunca houve, no clube, aquele negócio de você ficar anos e anos seguidos no comando do Rio Branco. Eu, por exemplo, depois de uma administração de quatro anos, dei lugar para o João Carlos, depois veio o Edmir Borges Gadelha, o Sebastião Alencar, o Wilson Barbosa, o José Macedo, eu novamente. Eu acho que isso, esse espírito de renovação que sempre existiu dentro do Rio Branco, é que transformou o clube nessa potência que ele é hoje.

     O senhor acha que o futebol acreano tem futuro?

     Olha, eu quero fazer uma menção especial ao governador Jorge Viana, porque o futebol acreano este ano só chegou ao seu final graças à ajuda que ele deu aos clubes. Ninguém vai deixar de assistir a um jogo de futebol do sul, sentado em sua casa, tomando uma cervejinha, para ir ao [estádio] "José de Melo". Então, embora eu veja com grande alegria que o Governo do Estado vai investir muito no Centro Olímpico, penso que o futuro do futebol acreano, em si, será igual ao futebol amazonense. Vai ficar entre dois clubes, e olhe lá. Em Manaus, com quase dois milhões de habitantes, não há espetáculo para encher o estádio Vivaldo Lima, que vive às moscas. Praticamente, lá, só existe o São Raimundo. E aqui, a continuarem as coisas como estão, deverá, praticamente, sobrar apenas o Rio Branco.

     Se o senhor voltasse a ser presidente do Rio Branco, qual seria a sua primeira providência?

     Fazer um time de futebol para não perder para esses pernas-de-pau aqui do Acre, de jeito nenhum. Não sei exatamente como eu faria isso, mas sei que o Rio Branco tem condições para tal. Primeiro que tudo, prestigiar os técnicos de futebol do Acre, porque, embora eu respeite alguns profissionais que vieram de outras paragens, eles já chegaram comprometidos com empresários de lá, que mandam indicações de atletas nem sempre de bom nível técnico.

     Na sua opinião, o que representa o Rio Branco para a cultura acreana?

     O Rio Branco faz parte da história do Acre. Eu lembro que, antigamente, se faziam festas memoráveis na sede do clube. Uma delas não me sai da lembrança. Foi promovido um desfile de tipos, demonstrando a moda no correr dos anos. Além disso, se promoviam tardes de poesias. Enfim, o Rio Branco sempre foi uma força viva neste Estado. O seu hino, por exemplo, composto há sessenta anos por músicos da terra, é uma coisa linda. Quer dizer, o Rio Branco tem a sua história dentro do cenário acreano.

 
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro