| Roberto Miranda A negritude do rádio brasileiro afirma que quer morrer no Acre |
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(Publicada no jornal O Rio Branco, em março de 2005) |
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O papo rola solto entre jornalistas esportivos de todo o país. Alguns questionam o editor do programa de televisão Globo Esportes, Sydney Garambone, a respeito dos motivos pelos quais não passam os gols dos seus estados em rede nacional; outros se encarregam de esvaziar todos os copos que lhes caem nas mãos; uns outros apenas se deliciam com a paisagem. No fundo do barco, aproveitando para carregar pedras na hora do descanso, Francisco Dandão , Alberto Casas e Manoel Façanha , os três representantes do Acre no evento, dão um certo tom de entrevista a uma conversa com o veterano repórter de pista Roberto Miranda, um mineiro de Viçosa que trabalhou em Rio Branco durante seis anos, entre 1978 e 1984.
Francisco Dandão - Eu gostaria que você começasse essa nossa conversa falando das suas lembranças, das suas melhores recordações, vinte anos depois de passar por Rio Branco e marcar época na imprensa esportiva local... Roberto Miranda - Eu só tenho coisas boas a recordar da minha passagem pelo Acre. E se existe um arrependimento na minha vida, foi o de eu ter saído de Rio Branco muito cedo. Eu me lembro como se fosse hoje dos companheiros Joaquim Ferreira e Campos Pereira, este de saudosa memória, me recepcionando no aeroporto, quando da minha chegada na cidade. Aquilo emocionou tanto a mim e a minha espora Vera Alice que a gente acabou chorando copiosamente. Imagine você, chegando numa terra desconhecida e assim, logo de cara, sendo tão bem recebidos. E quero aproveitar essa oportunidade que vocês estão me dando para agradecer aos meus antigos comandantes na 4ª Companhia Especial de Fronteira, os coronéis Deusdeth Luís Gondim e Raimundo Guerino Monteiro, que me deram toda a liberdade para que eu pudesse atuar no rádio esportivo. E lhe digo mais: eu posso estar fora de Rio Branco, mas na minha memória a cidade está sempre presente. Alberto Casas - Você parece ser um predestinado. Aonde o futebol acreano vai, onde a crônica esportiva do nosso Estado aparece, nos seus melhores momentos, você está sempre presente. Tanto é que, em 1997, você estava em Belém quando o Rio Branco ganhou em cima do Clube do Remo o título de primeiro Campeão do Norte... Roberto Miranda - Você lembrou bem. Eu estava em Belém naquele dia. E tão logo recebi o convite do Paulo Roberto, que me localizou em Belém no 2º BIS, para comentar aquele jogo, eu respondi que sim, com todo o prazer. O detalhe interessante é que os paraenses tinham absoluta certeza de que iriam ser campeões, levando em conta que o seu futebol desde há muito participava de competições nacionais. Mas, logo nos primeiros minutos da partida eu cantei a pedra que o negócio não ia ser fácil não para o lado deles. E para nossa felicidade, o futebol acreano mostrou técnica, raça e, além de tudo, arte, sem qualquer resquício de violência. Foi sensacional. O estádio lotado. Eu lembro até que o Rio Branco virou o primeiro tempo ganhando e a torcida paraense dizia que na etapa complementar tudo seria diferente. O que eles não sabiam era que a diferença seria a nosso favor. O Remo empatou, mas o Rio Branco fez 2 a 1. E aí, foi só correr pra a galera. Aquele abraço... Manoel Façanha - Você é conhecido como um repórter folclórico, que anima os ouvintes. Quando você trabalhava em Rio Branco , existia todo um ritual nas suas intervenções, como a corrida em alta velocidade para entrevistar um atleta ou chegar perto de algum lance polêmico. A galera ia junto com você. O que eu queria saber é se você acha que existe alguma maneira hoje de motivar os torcedores, mais ou menos do jeito que você fazia na sua época. Roberto Miranda - Eu vou me basear nas palavras de um saudoso comentarista da década de 1970, consagrado no Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí, dos pampas aos seringais, que atendia pelo nome de João Saldanha, um mito do jornalismo esportivo deste país. Ele dizia, quando o Brasil foi campeão mundial pela terceira vez, no México, que apesar do bom momento, no futuro não seria tão bom assim. A conquista faria o nosso futebol ser tão valorizado que nós não conseguiríamos pagar o preço exigido pelos atletas. Nós estamos vendo, realmente, que isso aconteceu. E, assim sendo, os nossos melhores valores vão seguindo, um a um, para o exterior. Dessa maneira, o público, que não é nada bobo, acaba se afastando dos estádios e fica difícil para o repórter motivar a galera. A gente só pode vender o que realmente existe. Se dissermos que está tudo às mil maravilhas e o torcedor constatar que não é bem assim, o que vai acontecer é que nós vamos perder a credibilidade. Francisco Dandão - Eu gostaria agora que você falasse do futebol acreano do seu tempo de repórter em Rio Branco. Você acha que havia algum jogador que poderia ter se destacado em nível nacional? Roberto Miranda - Naquela época tinha inúmeros jogadores de ótimo nível técnico. Principalmente no Atlético Clube Juventus. Uma garotada, tudo na faixa dos 17 ou 18 anos, a exemplo de Mariceudo, Paulinho. O Emílson, que me fazia muito lembrar do Falcão, do Internacional gaúcho. O Emílson era um meio campo que desarmava e distribuía o jogo com muita elegância e precisão. Eu me lembro de uma partida entre Juventus e Atlético Acreano, do 2º Distrito, em que o ataque juventino parecia até o Carrossel Holandês. O futebol acreano daquela época já era profissional, só faltava colocar no papel. E nessas de boas lembranças eu quero aproveitar para lamentar a desclassificação de um time acreano na primeira fase da Copa do Brasil, fato que aconteceu este ano, quando o Rio Branco foi batido pelo Moto Clube, do Maranhão, dentro de casa. Antigamente, qualquer time que jogava lá no "José de Melo" tremia. A coisa não era fácil não. Mas talvez sirva de exemplo. Alberto Casas - Você falou há pouco que se arrependeu de ter passado somente seis anos em Rio Branco. Mas agora, que você já está na reserva do Exército Brasileiro, você pretende voltar para o Acre? Quais os seus planos de futuro nesse sentido? Roberto Miranda - Eu estou lutando para voltar para o Acre. Eu não tenho é tido tempo para isso, porque apesar de estar aposentado do Exército eu tenho as minhas obrigações na Rádio Difusora de Campo Grande e na TV Regional. A minha filha, por exemplo, já esteve lá umas três vezes, fazendo o vestibular para Medicina na Universidade Federal do Acre. E o melhor de tudo é que ela agora só quer fazer o curso superior se for em Rio Branco. Quando nós viemos, ela veio na barriga da mãe dela. Só conhecia a cidade de ouvir falar. Depois que foi a primeira vez, só fala em ficar de vez. Eu ainda não fui, mesmo, porque não quero ir para uma passagem rápida. Eu tenho que ir a Rio Branco para ficar, no mínimo, algumas semanas. E quando chegar não quero estar andando de carro, quero andar a pé, para cumprimentar os companheiros. De preferência, não quero nem dormir, quero passar as noites acordado. Quando eu for, quero, inclusive, tentar levar o meu primo, o Dadá Maravilha. E vou dizer mais uma coisa: se eu puder escolher, quero morrer no Acre. Manoel Façanha - Roberto, para finalizar aqui essa nossa conversa, que já estão nos chamando para o almoço, dá para você escalar a sua seleção acreana, botar no papel os onze melhores jogadores que você viu em ação quando da sua passagem pelo nosso Estado? Roberto Miranda - Eu vou destacar dois jogadores, que inclusive o Nacional, de Manaus, e até o Fluminense, do Rio de Janeiro, quiseram levar na época, por indicação minha: Paulinho e Mariceudo. Esse último, inclusive, chegou a jogar lá em Manaus. O Mariceudo era um atacante que jogava tanto para o time quanto para a torcida. E o Paulinho eu indico principalmente pela sua velocidade. Ele era um jogador tinhoso, aguerrido. Em minha opinião, esses dois formavam um dos melhores ataques do futebol brasileiro. Eles não davam chances para os defensores. Eu me lembro de vários zagueiros que eu ouvia comentando que o Paulinho e o Mariceudo só poderiam ser parados na porrada. E tinham que marcá-los bem longe da área, que era para evitar o pênalti. Goleiro, para mim, o melhor dos que eu vi foi o Illimani. A seleção eu vou ficar devendo porque é meio difícil lembrar hoje de todo mundo. Mas eu poderia citar, além de Paulinho, Mariceudo e Illimani, o zagueiro Deca, o meio de campo Carlinhos, o goleiro Ilzomar e o ponteiro Manoelzinho. |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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