| José Fonseca Memórias de um pioneiro do ensino superior acreano |
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(Publicada no jornal O Rio Branco , em outubro de 2005) |
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Francisco Dandão
Professor de educação física e economista, formado, respectivamente, em 1950, na Escola de Educação Física do Exército, no Rio de Janeiro, e em 1972, na Ufac, José da Fonseca Araújo iniciou sua vida pública como Guarda Territorial, exercendo depois, de 1963 a 1966, um mandato como deputado estadual constituinte. Na Assembléia Legislativa, faz questão de dizer, num período político totalmente efervescente, dado o Golpe Militar de 1964, trabalhou com outros nomes notáveis da política local, como Francisco Thaumaturgo, Omar Sabino de Paula, Elói Abud, Adonay Santos, Benjamin Ruela, Guilherme Zaire, Augusto Hidalgo de Lima e Carlos Afonso. Na Ufac, instituição que ajudou a criar, junto com o amigo Áulio Gélio Alves de Souza (primeiro reitor), além de professor de Administração Financeira no curso de Economia, exerceu o cargo de pró-reitor de Administração de 1970 a 1983, respondendo também em alguns períodos pela titularidade da pró-reitoria de Ensino (atual Graduação). Depois de se aposentar do serviço público federal, em 1983, foi, entre outros cargos, assessor de gabinete do Governo Nabor Júnior, diretor da Secretaria de Transportes, diretor de administração do Deracre e auditor do Tribunal de Contas do Estado. Hoje, ao lado da esposa Latife, divide o tempo entre leituras e visitas a uma fazenda na Estrada Apolônio Sales. Confira abaixo, os principais trechos de um depoimento dado a Francisco Dandão, da assessoria de comunicação da Ufac, e Patrícia Freitas, estudante de jornalismo da mesma instituição. O embrião da Ufac Embora muitos acreanos falassem já há muito tempo sobre a criação de uma universidade aqui, foi o governador Jorge Kalume que levou a idéia à frente. Só que o pessoal de Brasília aconselhou o governador a não criar naquele momento uma universidade, mas sim um centro universitário. E assim foi feito, isso em 1969. Para dirigir o recém criado centro, o governador Jorge Kalume convidou o professor de Matemática Áulio Gélio. Este disse que não tinha condições de realizar a tarefa sozinho. Coincidentemente, logo depois do convite, quando o Áulio ia descendo a escadaria do palácio, eu ia passando na calçada. O Áulio, então, me convidou e eu topei na hora, não sem antes adverti-lo que talvez o Kalume não me aceitasse, uma vez que eu era suplente de deputado pelo PTB, partido de oposição ao do governador. Mas, para minha surpresa, o Kalume não se importou e nós começamos a organizar o centro, que funcionava onde hoje é o prédio da Secretaria da Fazenda. Os primeiros cursos Os cursos que inicialmente formaram o Centro Universitário foram Estudos Sociais, Letras e Pedagogia. Os cursos de Direito e Economia, que não pertenciam ao centro, já funcionavam há algum tempo. O de Direito foi criado em 1964 e o de Economia foi criado em 1968, ambos em pleno regime militar. Direito funcionava onde hoje é a sede do Banacre [extinto], na esquina das ruas Benjamin Constant e Marechal Deodoro. E Economia funcionava no Colégio Meta, que na época se chamava Colégio dos Padres, na avenida Epaminondas Jácome. O centro universitário funcionou até 1972, quando foi criada a universidade estadual pelo governador Francisco Wanderley Dantas, que o povo chamava de Dantinha. Essa universidade estadual perdurou até 1974, quando era ministro da Educação o acreano de Xapuri Jarbas Gonçalves Passarinho. Então, o Áulio Gélio, o Kalume e o Geraldo Mesquita, ainda no governo do Dantinha, conseguiram criar a universidade federal, nos moldes como a gente conhece hoje. As dificuldades iniciais As dificuldades iniciais foram muitas. Inclusive no que diz respeito às instalações. A Ufac começou a funcionar ali onde hoje é o Colégio de Aplicação, e aí houve uma reação muito grande. Para trazer o curso de Direito para ali foi muito difícil. O prédio era pequeno para todo mundo e o pessoal de Direito queria funcionar em um horário em que atrapalhava os outros cursos. Eles queriam que as suas aulas começassem às 16 horas e fossem até às 20 horas. Foi preciso muito jogo de cintura para fazer o curso funcionar totalmente no horário noturno. No que diz respeito a recursos, posso afirmar que não tiveram muitos problemas depois da federalização. Antes, sim. Para resolver o problema de instalações é que se pensou em construir o campus. Já na época da federalização, o Áulio começou a tratar disso no Ministério da Educação, que em princípio foi contra. Eles queriam alugar prédios, não construir um campus universitário. Mas o Áulio forçou e conseguiu. E aí, nós construímos quatro blocos em quatro anos. A construção do campus O Ministério do Interior, cujo titular na época era Mário Andreazza, foi muito importante na liberação de verbas para a construção do campus universitário. Muito dinheiro foi conseguido pelo reitor Áulio Gélio junto à Superintendência da Zona Franca de Manaus, Suframa. O Áulio fez amizades com o pessoal de lá, que acreditou nele. Inclusive, o Áulio esteve na solenidade de posse, em Brasília, do superintendente daquele órgão, um professor da Universidade do Amazonas, chamado Ruy Lins. O Áulio leu num jornal que a posse ia acontecer e se mandou para lá. Uma semana depois da posse do superintendente, o Áulio já estava na Suframa com um projeto para a construção do primeiro bloco de salas de aula do campus universitário. Depois disso, vendo a capacidade administrativa do Áulio, o ministro Mário Andreazza disse ao superintendente Ruy Lins que ele podia dar o dinheiro que o reitor acreano precisasse para fazer a obra. Os primeiros blocos foram todos construídos com o dinheiro da Suframa. O regime militar Eu posso afirmar que a Ufac nunca teve problemas com o regime militar. É certo que eles nos visitavam, davam algumas orientações, mas não nos causavam transtornos, inclusive porque não havia motivo para isso, já que ninguém fazia nenhuma agitação. Os estudantes tinham a sua representação, mas praticamente não se envolviam com questões políticas. Então, pode-se dizer que nunca tivemos problemas com eles. O que acontecia, entretanto, é que eles, inteligentemente, matriculavam oficiais nos diversos cursos da instituição, principalmente no curso de Economia, que era noturno. Mas isso era uma prática comum naquele tempo, não somente na Ufac, mas em todas as universidades do país. Aqui entre a gente, de modo geral, eles estudavam apenas alguns períodos e depois eram transferidos para outros estados. Um oficial que eu lembro que fez o curso de Economia completo na nossa universidade foi o tenente Aloísio Rocha, que hoje trabalha na Assembléia Legislativa. O olhar sobre o presente Uma coisa que eu não gostei, depois que eu saí da Ufac, foi ver vários professores que nós qualificamos debandarem. Veio uma lei federal permitindo a transferência e muitos os que fizeram mestrado na nossa época aproveitaram para ir embora. Mas hoje eu digo que aprovo a gestão do atual reitor, que luta com muitas dificuldades orçamentárias para não deixar a universidade fracassar. É claro que existem algumas coisas que podiam ser melhores. O curso de Agronomia, por exemplo, eu penso que poderia ser mais dinâmico, poderia cumprir um papel mais efetivo junto à sociedade. Aquelas áreas no Catuaba e no Humaitá poderiam estar produzindo. A área do Humaitá, que corresponde a 12 hectares , foi uma conquista do Áulio junto ao Incra. Ali, com o tempo que pertence à Ufac, já deveria ter muita coisa. Mas a gente sabe que, às vezes, os dirigentes têm boa vontade, esbarrando na falta de recursos, porque o Governo Federal tranca muito o cofre. De modo geral, eu acho que a Ufac vai bem, sim. |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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