| Zé Alício Secretário diz que Campos Pereira foi um exemplo de dedicação ao esporte |
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(Publicada no jornal O Rio Branco - Dezembro de 2005) |
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Francisco Dandão
De passagem por Rio Branco (atualmente estou morando em Fortaleza-CE) para participar do Prêmio Destaque Esportivo Campos Pereira, nesta sexta-feira (16), cheguei a imaginar que eu nem conseguiria o meu intento, uma vez que tenho passagem marcada para sábado (17). De qualquer maneira, alguma coisa no meu ouvido encorajou-me a levar o projeto em frente. Para minha agradável surpresa, entretanto, bastaram alguns minutos ao telefone para que o encontro fosse marcado. E melhor de tudo: para o mesmo dia, a partir das 16 horas, no gabinete dele, que fica na esquina das ruas Benjamin Constant e Marechal Deodoro, no quarto andar do prédio (sem elevador) que um dia abrigou a sede do Banco do Estado do Acre. A nota dissonante da entrevista só aconteceu por culpa exclusivamente minha. No afã de pegar o meu bilhete de passagem, acabei demorando muito mais do que deveria na agência de viagens. Assim, cheguei à secretaria com meia hora de atraso. O secretário Zé Alício, porém, sequer esboçou algum tipo de aborrecimento. Recebeu-me como se nada tivesse acontecido. Do aperto de mão inicial às perguntas demoramos mais de meia hora. Nem parecia um encontro para uma entrevista. Ao invés de realizarmos imediatamente o que combinamos, o que acabamos mesmo fazendo foi conversar, principalmente sobre aspectos das nossas vidas, da pobreza a que fomos submetidos na infância e como passamos incólumes pelas dificuldades. Como não é a minha história que interessa, atenho-me a resumir a dele, que aos 40 anos exerce um cargo de secretário de Estado, depois de vir ainda criança de Manuel Urbano, onde nasceu, e de ter sido, entre outras coisas, engraxate, menino de rua, carregador de tijolo em olaria, padeiro, cantor de programa de calouros, ator de teatro amador, vendedor de picolé e palhaço. Confira abaixo os principais pontos da gravação com o secretário José Alício Martins sobre seus sonhos, suas realizações, suas frustrações e do prazer que ele diz ter em trabalhar por uma causa tão nobre como a do esporte, principalmente depois de ter, também, num passado não muito distante, sido, ao mesmo tempo, jogador de futebol, de handebol e de voleibol. Prêmio Campos Pereira "O Prêmio Campos Pereira é uma novidade, no tocante ao desenvolvimento do esporte do Acre, porque o objetivo é prestar duas homenagens. Primeiro, a todos os dirigentes, atletas e investidores que se destacaram ao longo da temporada de 2005. E o segundo, é o de fazer um reparo na história desportiva do estado, daquele que, sem sombra de dúvida, foi o maior incentivador, tanto dos atletas quanto dos cronistas esportivos que passaram por esse torrão, que foi o nosso incansável e glorioso Pedro Paulo Menezes de Campos Pereira. Portanto, esse prêmio, que nós estamos apoiando através da Lei de Incentivo ao Esporte, tendo a Associação dos Cronistas Esportivos na sua organização, para nós é um marco inicial dessa história bonita que o Campos Pereira conseguiu construir e que nós estamos ajudando a preservar, através da valorização dos nossos talentos esportivos, estimulando-os a continuarem a praticar o esporte, que é uma atividade que nós vemos como uma grande porta para que todos possam se auto-afirmar e se integrar à sociedade". Balanço da gestão "A Secretaria de Esportes foi implantada no ano de 2003. Um ano muito difícil porque a gente estava num processo de organização, tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista dos recursos humanos. Foi uma luta árdua. Mas, graças a Deus, nós tivemos muitos parceiros na caminhada, principalmente a iniciativa privada e a crônica esportiva. Em 2004, nós já chegamos com um orçamento definido, bem como com uma política de implantação do esporte nas dimensões do rendimento, do social e da educação, contando com as participações de entidades esportivas, ligas e associações. Desenvolvemos ações em todos os municípios e implantamos programas que vieram a dar a tonalidade política da secretaria. Esses programas e projetos que eu acabei de falar foram consolidados em 2005, ano que eu entendo ter sido de muito sucesso para o esporte acreano em todos os aspectos. Veja que no esporte de participação, por exemplo, nós chegamos a atender cerca de 150 mil pessoas, através da Lei de Incentivo ao Esporte. E no esporte de dimensões sociais, a gente conseguiu consolidar alguns programas, como 'Mais Saúde na Terceira Idade', 'Esporte para Portadores de Necessidades Especiais', 'Esporte para os Privados de Liberdade', e o 'Programa Pintando a Liberdade', que nós acreditamos ser o grande cartão postal da secretaria. Todas essas ações surgiram a partir de uma conferência que nós realizamos com a participação de pessoas de todo o Estado, pensando estar construindo os pilares de uma política sustentável e duradoura". Cartão postal "O Programa Pintando a Liberdade, que nós chamamos de cartão postal da nossa secretaria, é uma iniciativa do Ministério do Esporte em atender aqueles que perderam o direito de ir e vir e estão recolhidos nas unidades de recuperação social, que são as antigas penitenciárias. O Acre recebeu esse programa no ano 2000, atendendo inicialmente 100 reeducandos daqui da Penitenciária Francisco de Oliveira Conde, em Rio Branco. Esse programa atende hoje mais de 500 presos, sendo que, por conta disso, já foram confeccionadas mais de 20 mil unidades de produtos esportivos, tais como bolas e redes para todas as modalidades. Inclusive, já recebemos até prêmio nacional por conta desse programa, reconhecido como um dos mais produtivos, organizados e de maior inclusão social do país. Os presos produzem o material esportivo, ganham algum dinheiro e ainda têm reduzidas suas penas, na proporção de um dia a menos para cada três dias de trabalho. É um programa que agrega um valor social muito forte". O trabalho no interior "Nós planejamos a gestão da secretaria respeitando as regionais. Nós temos uma regional em Cruzeiro do Sul, que cuida dos municípios próximos. Nós temos uma gerência em Tarauacá, que faz o mesmo trabalho. E nós temos outras duas regionais, sendo uma em Sena Madureira e outra em Rio Branco. Portanto , nós dividimos a nossa gestão em regionais, para que cada vez mais a gente possa se aproximar daqueles que fazem o esporte nos respectivos municípios. Fora isso, cada um dos municípios acreanos tem o seu órgão municipal voltado para o desenvolvimento do esporte. E isso nos ajuda na implementação de políticas nos municípios. A participação da secretaria tem sido de tornar harmônica a relação entre prefeituras e governo. A gente monta a estrutura física, ginásios e campos de futebol e o município gerencia e desenvolve as atividades propostas dentro do seu espaço geográfico. Mas nós acreditamos que o grande salto qualitativo no desenvolvimento do esporte no Acre vai acontecer efetivamente a partir da criação do Conselho Regional de Esportes, com a participação de um representante de cada município". Alegrias e frustrações "Evidentemente, a função de gestor de esportes no Acre nos causou muitas alegrias, mas também nos causou muitas frustrações. Porque o esporte, diferentemente de outras atividades, é um componente indissociável da vida humana, ele é vivido diariamente, é como um alimento. Então, se a pessoa prescinde desse alimento, e se a cada dia ela quer um alimento diferente, eu penso que enquanto isso acontece, nós não estamos criando uma cultura esportiva. Nós temos que criar uma cultura esportiva que possa ser uma política de estado e não de indivíduos. A política do esporte deve ser uma política de estado. Ao longo de muitas décadas, nós percebemos que o esporte aqui foi feito por pessoas abnegadas, sem interesse político, e que foram muito massacradas. Eu até diria que o Campos Pereira, que em alguns momentos lutou contra tudo e contra todos, foi uma dessas pessoas. Nesse sentido, a nossa esperança é que, ao término da nossa gestão, a gente possa estar apresentando para todos os desportistas um balanço do que foram esses quatro anos da nossa gestão. Eu acho que vou entregar a minha gestão na Secretaria de Esportes com algumas conquistas, mas sei que serão conquistas pequenas naquilo que o estado do Acre precisa vivenciar em matéria de esportes. Eu acho, por exemplo, que ainda falta uma política forte de esporte de rendimento para nós. Entendo que o Acre precisa avançar nesse campo. No que diz respeito a mérito, eu acho que a nossa maior conquista foi conseguir democratizar o esporte, levando-o para todos os rincões do Estado". Os dez maiores atletas de todos os tempos "Dadão, Bico-Bico, Escapulário, Chico Alab, Rui, Mariceudo, Mário Vieira, Ely, Mário Sales, Bolinha, isso no futebol. Joneudes, no voleibol; Afrânio, no handebol; Casquinha, no futsal; Tetê, no basquete; Afonso, Floriano, Da Silva, Arimatéia, Paulo César, falecido no ano passado, no atletismo. Lamento, mas não dá para eleger somente dez. E ainda me desculpo por ter citado mais jogadores do Independência, que é o meu time do coração. E sem esquecer gente como Neórico, Palheta, Paulão, Duda, Zé Augusto, Paulinho, Milton... É muita gente boa que nos brindou ao longo do tempo com grandes espetáculos esportivos no estado do Acre". História de vida "Eu só fui ter filho com 30 anos. Meu primeiro filho biológico, o Rudhá, tem hoje 10 anos. E um dia desses, ele chegou pra mim para dizer que na escola onde ele estuda os meninos dizem que filho de secretário de Estado é rico. E aí eu fui explicar pra ele que os meninos estavam enganados, que isso era uma cultura que tinha sido criada no Acre uns tempos atrás. Um tempo em que o cargo não era tido como uma função pública, como um serviço de abnegação em benefício da comunidade. O filho de um secretário naquela época era tido como alguém acima das outras pessoas. Hoje não, eu disse para o Rudhá. Hoje, um secretário é um funcionário público, alguém que exerce cargo de confiança, com horários, obrigações, e isso não dá o direito desta pessoa de arrebitar o nariz ou se considerar acima das outras pessoas. Eu vim de uma família humilde, dez irmãos, mãe semi-analfabeta, pai analfabeto, fui engraxate, padeiro, comi o pão que o diabo amassou e hoje me considero premiado com a função pública que exerço, inclusive para servir de exemplo para outras gerações. Eu penso até, em alguns momentos, que talvez eu esteja aqui para isso mesmo, para servir de exemplo para outras gerações, de ter vindo praticamente do nada e ter chegado tão longe. E me orgulho de sair da secretaria pobre do jeito que entrei, seguindo, inclusive, as palavras da minha falecida mãe, que dizia o seguinte: 'Meus filhos, vamos ser negros, pobres, mas limpinhos de caráter e dignidade'. Nós queremos sair da secretaria conscientes de que tivemos muitos sonhos, mas não conseguimos realizar todos. Mas conscientes também que vamos deixar uma semente plantada para os que nos sucederem". |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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