Francisco Dandão
 
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  Joaquina Simão
Primeira pró-reitora lembra os
primórdios da história da Ufac
 
         
 
(Publicada no Jornal da Ufac - Outubro de 2006)
 
         
 

Francisco Dandão

e São Francisco do Sul (SC), onde nasceu em 11 de dezembro de 1930, a Rio Branco (AC), aonde chegou para não mais sair em 1958, se passaram vinte e oito anos na vida da professora Joaquina Heduviges da Veiga Simão. Entre a origem e o destino, a formação na Faculdade de Educação da Universidade do Distrito Federal (UDF) e o casamento com o biólogo Carlos Alberto Simão Antônio, na cidade do Rio de Janeiro.

     A vinda para o Acre começou a se desenhar no destino da professora Joaquina ainda durante o curso de Pedagogia na UDF, no início dos anos de 1950, quando o Brasil vivia o trauma da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo, em pleno Maracanã. O maior incentivador era um jovem colega chamado José Augusto de Araújo, que mais tarde, em 962, viria a ser o primeiro governador do Estado do Acre.

     O incentivo do colega de faculdade foi decisivo para que Joaquina e Carlos Simão aceitassem o convite (talvez fosse melhor dizer "desafio") do governador Valério Magalhães. Tudo estava por ser feito por aqui. Era tanta a carência no nível educacional, por exemplo, que a jovem professora teve que lecionar, num primeiro momento, todas as disciplinas pedagógicas que constavam no currículo da Escola Normal Lourenço Filho.

     Nos trinta e cinco anos seguintes a professora Joaquina dedicou a vida à causa do ensino acreano, ocupando os mais variados cargos, desde secretária de Educação do Estado até pró-reitora de Assuntos Comunitários da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde permaneceu por dez anos (de 1974 a 1984). De passagem, fez parte, em 1970, do grupo que fundou o Centro de Ensino Superior do Acre, embrião da futura universidade federal.

     Hoje, aos 75 anos, morando com os filhos Camila e João numa casa simples na Cohab do Bosque, a professora Joaquina Heduviges da Veiga Simão adora conversar sobre a história da educação acreana, da qual, posso dizer, é uma das suas mais ilustres personagens vivas. Os principais trechos da minha conversa com ela, testemunhada por um gato angorá e um gato siamês, é que estão transcritos nas linhas seguintes.

     Eu gostaria que a senhora começasse essa conversa falando sobre os primeiros passos do ensino superior acreano...

     Na época, mais ou menos na segunda metade da década de 1960, existiam pessoas da comunidade interessadas em continuar os seus estudos. Então, nós fomos ao encontro dessas pessoas, começamos a fazer reuniões e, contando com a boa vontade do professor Áulio Gélio Alves de Souza, que depois veio a ser o nosso primeiro reitor, a gente começou a partir para a idéia de criar o ensino superior. Claro que as dificuldades foram inúmeras, mas a gente tinha vontade de vencer e, com isso, conseguimos chegar, em 1970, ao ponto da fundação do Ceunacre [Centro de Ensino Superior do Acre], que foi o primeiro passo para o surgimento, em 1974, da atual Universidade Federal do Acre [Ufac]. Além de mim e do professor Áulio Gélio, participaram nesse primeiro momento de criação do ensino superior no Acre pessoas como os professores Carlos Simão, Jurandir Rodrigues, Zaíra Zeque, sendo que, é sempre bom destacar, nós tivemos todo o apoio possível do então governador Jorge Kalume.

     Que dificuldades foram essas que a senhora fala, professora Joaquina?

     Dificuldades, todas as vezes que a gente se mete num desafio deste porte, sempre existem. Mas, a nossa vontade de criar os primeiros cursos superiores no Acre, na área de Educação [já existiam Direito e Economia], era tamanha que nós conseguimos superar tudo. O Ministério da Educação, inclusive, apoiou a idéia, o governador Jorge Kalume, também. De forma que, as dificuldades, eu posso dizer, foram as naturais que se apresentam nesses momentos, algumas de caráter documental, outras no que diz respeito ao aspecto físico, no sentido de conseguir um lugar adequado para os cursos começarem a funcionar, formação do quadro de professores, essas coisas assim, mas nada que se possa afirmar insuperável.

     Os primeiros cursos de licenciatura foram os de Matemática, Letras, Pedagogia e Estudos Sociais, sendo que este último depois foi dividido em História e Geografia. Por que é que esses cursos foram os escolhidos?

     Quem escolheu os cursos foram as pessoas da comunidade, muitas das quais já trabalhavam no magistério sem a devida qualificação superior. Essas pessoas precisavam ter um nível melhor e não podiam sair do Acre para estudar em outros estados. Há quem diga hoje que houve, na época, interferência dos militares para a criação dos cursos, mas eu, pelo menos, que vivi aquele período, não vi nada disso. Na minha ótica, os cursos foram escolhidos por uma necessidade local. Aquela era uma oportunidade única para que professores que há anos trabalhavam no sistema de ensino, mas possuindo apenas o segundo grau, pudessem voltar a estudar, desta vez numa universidade. Casos, por exemplo, que eu me lembro agora enquanto converso com você, das professoras Maria José Bezerra, Edir Marques, Marília Santana, Mauricila, todas já trabalhando, mas ainda sem a devida formação superior.

     E como foi que a senhora foi convidada para fazer parte desse grupo de pioneiros do ensino superior acreano?

     Por ter sido uma das primeiras professoras formadas, talvez a primeira, a chegar ao Acre, e por ter muita, mas muita mesmo, vontade de trabalhar. Aí, eu e o Carlos Simão fomos convidados pelo professor Áulio Gélio, que já tinha sido designado pelo governador para conduzir o processo. Nós topamos na hora, entendendo que estávamos trabalhando pelo bem estar de toda uma coletividade, para ajudar a concretizar o sonho de toda uma geração. Achamos que era uma causa mais do que justa. E, nesse sentido, eu entendo que o tempo, quase quarenta anos depois, provou que nós tínhamos razão. Os frutos daquele trabalho que a gente começou a realizar no início dos anos de 1970 estão aí vivos, ao nosso redor hoje, para provar que o esforço dos pioneiros, usando uma expressão sua, não foi em vão. São incontáveis os acreanos formados ao longo desses quarenta anos na Universidade Federal do Acre, cujo início se deu com a criação daqueles quatro cursos que formaram o Centro de Ensino Superior do Acre.

     Na época mais radical do regime militar, no decorrer de toda a década de 1970, como era a vida na universidade? Os militares interferiam muito na vida universitária?

     Não havia interferência dos militares, não que eu me lembre. Na época da criação dos primeiros cursos tudo era muito tranqüilo na universidade. Eu não sei se porque eu fiz parte do governo militar que entrou aqui, não senti nenhuma dificuldade nessa parte não. Ao contrário, acho até que os militares ajudavam. Meu marido fazia parte da Arena, que era o partido político de apoio aos militares, o mesmo partido, naturalmente, do Coronel Edgar Pedreira, que tomou posse na época como governador do Estado. Nunca senti que os militares tenham interferido na vida da universidade. O que havia bem patente naquele tempo era a censura, uma coisa que eu acho que hoje está fazendo falta. O negócio abriu demais e eu acho que um pouco de censura e respeito hierárquico é uma coisa muito boa. Em determinados momentos hoje, fruto da evolução dos costumes, não há respeito entre as pessoas, de alunos para com os professores e até de professores para com os seus pares. Nos meios de comunicação, então, eu acho que está fazendo muita falta alguma censura. Abriu demais. É isso que eu penso, essa é a minha cabeça.

     Quais as suas maiores alegrias enquanto dirigente da Ufac?

     Para mim foi muito prazeroso ser pró-reitora da Universidade Federal do Acre. Na minha época a gente trabalhava com cultura, com esporte, com assistência aos estudantes e também com acompanhamento médico dos funcionários. Tive a oportunidade de atender muitas pessoas, tanto funcionários como alunos. Nós fazíamos os Jogos Universitários, fomos várias vezes a outros estados com a nossa turma, não ganhando, mas competindo com dignidade. Na parte de cultura, criamos um cine clube, com sessões todos os finais de semana, no auditório da Ufac-centro, onde funciona hoje o Colégio de Aplicação. A parte de assistência ao estudante também foi boa, principalmente no que diz respeito ao restaurante universitário. Tudo isso me deu muita alegria, me realizando muito no exercício da função de pró-reitora. E ainda teve o Festival Acreano de Música Popular, o Famp, que, na minha visão representou uma marca na parte cultural do Estado. Especificamente no que diz respeito ao Famp, eu gostaria de destacar a participação da professora Maria Madalena Alencar Franco, que ajudou demais para a realização desse festival, e do radialista Estevão Bimbi, que já não está entre nós, mas que foi outro que se empenhou demais para a realização dos primeiros Famp's.

     E sobre decepções, professora, alguma coisa, na sua época de pró-reitora, lhe causou algum tipo de frustração?

     Não tive decepções enquanto pró-reitora, não tive. Não guardo nenhuma mágoa de ninguém, graças a Deus.

     Houve alguma coisa que a senhora fez no seu tempo de dirigente universitária que não faria mais?

     Eu acho que eu faria tudo do mesmo jeito, talvez melhor ainda. Porque foi um tempo em que realmente a gente sentia que os alunos colaboravam. Depois que eu saí, eu penso que teve uma época em que caiu tudo. Se eu pudesse, eu levantava de novo, procurando fazer o meu trabalho com mais ardor do que aquele que eu fiz.

     A senhora acha que deixou de fazer alguma coisa?

     Duas coisas que a gente sonhava quando começou, mas que acabou não acontecendo. Primeiro, com o Colégio de Aplicação, que eu sempre pensei como uma instituição para atender tanto a comunidade externa quanto interna da universidade. Mas, na minha cabeça, preferencialmente deveria ser atendida a comunidade interna. O Colégio foi criado na minha época e eu sempre o imaginei atendendo preferencialmente a turma da universidade. O que aconteceu é que veio a forma de sorteio das vagas, o que fez com que poucos filhos de funcionários fossem contemplados. A comunidade externa sempre foi mais beneficiada. Isso foi uma coisa que eu não realizei plenamente. A outra coisa que até hoje eu lamento não ter conseguido fazer foi a criação de uma creche na universidade.

     E a sua convivência com os alunos na sua época de pró-reitora...

     Muito boa. Tive algumas dificuldades com o pessoal que na época era chamado de esquerda, que, inclusive, ocupam cargos ilustres hoje, que estão em cima, mas que me deram muito trabalho quando eram estudantes. Casos, por exemplo, da ministra Marina Silva, o vice-governador Arnóbio Marques, o desembargador Arquelau, o Antônio Manoel... Eles faziam parte do Diretório Central dos Estudantes [DCE]. Eles e muitos outros mais. Até os compreendo. Deram trabalho, mas entendo que eles representavam um papel, que era o de lutar contra a ditadura. Eles nunca estavam de acordo com nada. Eram pessoas que traziam dificuldades, não querendo aceitar a hierarquia, faltando a reuniões marcadas com o reitor, com atitudes, de modo geral, muito petulantes.

     E, para completar essa nossa conversa, eu gostaria de saber como é que a senhora vê a Ufac hoje.

     Eu acho que a universidade piorou. Não, especificamente, a Universidade Federal do Acre, mas a universidade pública em todo o Brasil. Eu acho, não sei exatamente os motivos, e isso é só uma impressão pessoal, que a educação, de modo geral, caiu bastante. No meu tempo, não sei se porque eu fazia parte do dia-a-dia da instituição, estava mais próxima, vivia por dentro dos problemas e participava das conquistas, eu achava a universidade bem melhor. Eu acho que naquele tempo a universidade tinha uma participação social maior, conseguia se manter mais perto da comunidade, era mais viva, pulsava mais...

 
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro