Francisco Dandão
 
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  Ulisses Torres
Apaixonado por futebol, técnico do Juventus fala da própria carreira e diz que não poderia viver sem a bola
 
         
 
Publicada no jornal O Rio Branco - 19 de abril de 2008
 
         
 

Francisco Dandão

creano de Cruzeiro do Sul (veio para Rio Branco em 1975), 41 anos (23.11.1966), o técnico Ulisses Antun Torres de Melo é uma dessas pessoas que respiram futebol 24 horas por dia. E isso desde os 11 anos, quando vestiu pela primeira vez a camisa de um clube de futebol, no caso o infantil do Juventus, sob o comando do professor Jesus Lima. “Na minha primeira lembrança já existia uma bola de futebol”, diz Ulisses.

 Depois do Juventus, Ulisses vestiu muitas camisas como jogador de futebol: Rio Branco (infantil, em 1978, e profissional em 1987 e 1992); Teresópolis, do Estado do Rio de Janeiro (juvenil, de 1982 a 1985); América e Entrerriense, ambos do Rio de Janeiro (júnior, no primeiro, e adulto, no segundo, em 1986); Barra, do Rio de Janeiro (segundo semestre de 1993); e Juventus, em 1995, quando parou de jogar, aos 28 anos.

Mas o melhor da carreira do atleta Ulisses foi um convite para jogar no Flamengo (RJ), o que só não aconteceu por uma fatalidade. O convite veio depois de um treino da seleção brasileira que se preparava para a Copa de 1994. Ulisses e mais dois jogadores do Barra foram convocados para treinar no time B do Brasil. Um dirigente do Flamengo gostou do atacante cabeludinho e daí para o convite foi só um instante. Três dias depois, porém, ele se contundiu gravemente no joelho direito e o sonho se esvaiu.

Entre um clube e outro como atleta consagrado, um chute de efeito aqui, um gol acolá, Ulisses Antun Torres de Melo ainda achou tempo para cursar uma graduação em Educação Física e uma especialização em Treinamento Físico-Desportivo (ambas em Batatais - SP). A união da paixão pela bola com a prática e com o conhecimento teórico não poderia resultar em outra coisa que não fosse o exercício profissional como técnico de futebol, carreira que começou em 1997, no Vasco da Gama local.

De 1997 até hoje, Ulisses Torres dirigiu quatro equipes: Vasco da Gama (1997, 1999 e 2007); Batatais (2001 e 2002): Rio Branco (início de 2003) e Juventus (2004, 2005 e 2008). E dirigiu também as divisões de base do Andirá, em 2006. Título estadual, somente um: no Vasco de 1999. No Batatais, ficou em sexto lugar entre dezesseis participantes, na série B1 do campeonato paulista de 2001. No Rio Branco rescindiu contrato após ser desclassificado da Copa do Brasil pelo CFA, de Rondônia. Agora, no Juventus, a esperança de colher os melhores frutos, uma vez que o atual projeto da diretoria juventina prevê resultados dentro de três anos.

Estudioso do futebol como poucos técnicos que já passaram pelo Acre, devorador de livros sobre estratégia e tática desse esporte, membro da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol (ABTF), freqüentador assíduo de cursos de atualização em treinamento desportivo, Ulisses Torres largou seus múltiplos afazeres e se dispôs a me conceder uma entrevista no meio dessa semana que passou. Nas linhas que se seguem, uma síntese das respostas dele.

Diga-me, Ulisses, para começo de conversa, o que representa o futebol na sua vida?

Ulisses - O futebol e uma coisa que preenche a minha vida. Não tem nada que possa substituí-lo, talvez nem mesmo a família. Na verdade, futebol e família são sentimentos diferentes, que se completam. Eu preciso dos dois para viver feliz. O futebol é a minha própria vida. Em 2006, antes de eu ser convidado para dirigir as divisões de base do Andirá, me deu uma certa angústia porque naquele momento não estava aparecendo convite nenhum. Até que apareceu o Andirá, o que acabou me dando muito prazer, pela oportunidade de trabalhar com garotos e ajudar na formação deles, não só como atletas, mas também como homens. Muitos daqueles garotos, inclusive, foram para o Independência, fizeram uma brilhante campanha na Taça São Paulo de Juniores deste ano de 2008, e estão agora no profissional do Tricolor.

E sobre técnicos, em quem você considera que se espelha para exercer o ofício?

Ulisses - Eu andei estudando muito sobre o trabalho do Telê Santana, no São Paulo, o resgate que ele fez na equipe paulista quando o time estava em baixa, no começo da década de 1990, que culminou com dois títulos mundiais. O outro treinador em quem eu procuro me espelhar é o Wanderley Luxemburgo, que é um técnico que passa segurança para os jogadores e para quem assiste as suas preleções ou palestras. Eu, que sempre vou a um encontro anual de treinadores, promovido no Rio de Janeiro pelo Carlos Alberto Parreira, fico sempre maravilhado com o que diz o Wanderley Luxemburgo. Ele é um grande treinador, um modelo a ser seguido. Penso que ele é um dos melhores de todos os tempos no Brasil. E tem um sujeito, que não tem nada a ver com o futebol, mas que eu tenho a maior admiração, que é o Bernardinho, técnico da seleção de voleibol.

Sobre os seus tempos de jogador, quais são as suas melhores lembranças?

Ulisses - Quando jogava no infantil do Rio Branco, numa partida contra o Escuela Trinidad, da Bolívia, aqui no estádio José de Melo, eu estava no banco porque não tinha podido ir a Cobija, na partida anterior, quando perdemos para eles. Então, eu entrei aqui no segundo tempo, quando o jogo estava 1 a 1. Entrei e marquei o gol da vitória. Mas o detalhe legal, inesquecível mesmo, foi o que aconteceu depois. Eu soube que o Caíca, que era o ponteiro-esquerdo do time principal, e que estava internado num hospital local, ele ouvia o jogo pelo rádio e teria dito que quando eu entrasse faria o gol da vitória. Isso me emocionou profundamente, a ponto de jamais sair da minha lembrança. Uma outra coisa foi uma eleição que fizeram em Teresópolis, para eleger os melhores jogadores locais de todos os tempos. E eu fui um dos mais votados. Isso me marcou profundamente. Claro que os títulos que a gente ganha também são muito importantes....

Esse futebol que se joga hoje no Acre, Ulisses, que futebol é esse?

Ulisses - Eu penso que não somente no Acre, mas no Brasil como um todo, deveria haver uma preocupação maior dos dirigentes no sentido de se prepararem melhor para o exercício da função. Se isso acontecer, no dia em que os dirigentes forem mais preparados e menos passionais, o futebol irá melhorar sensivelmente. Na vida moderna, numa era de informação e tecnologia, não é mais possível alguém se engajar, seja na vida pública ou privada, de forma amadora. Além disso, é preciso criar uma boa infra-estrutura fora do campo. Hoje, por exemplo, no Acre, provavelmente seria muito mais difícil fazer futebol, talvez até impossível, se não fosse essa ajuda do Governo do Estado. Aliás, para efeito de registro, é bom ficar claro que esse convênio dos clubes com o Governo foi uma iniciativa minha com o Tião Bruzugu. Na verdade, a idéia foi dele, Tião, mas depois nós a desenvolvemos juntos. Em 1999, quando nós estávamos no Vasco da Gama, fizemos um projeto para o Governo, que prontamente acatou e cujos fundamentos estão valendo até hoje.

O que esperar desse Juventus que você dirige em 2008?

Ulisses - A minha primeira conversa com essa diretoria do Juventus foi para o desenvolvimento de um projeto com a duração de três anos. Pelas nossas projeções, ao final do terceiro ano nós deveríamos estar com uma equipe capaz de ganhar o título estadual. Mas, parece que no processo de formação desse time atual nós acabamos saltando algumas etapas e agora até já pensamos em ganhar o título desse ano mesmo. Certamente ainda cometeremos alguns erros no percurso, mas pensamos que, levando em conta a realidade dos outros times, já estamos em condição de brigar em pé de igualdade com todos pelo título dessa temporada. E até, se for o caso, alçarmos vôos mais altos, representando o Estado em alguma competição nacional.

Você sempre acerta quando traz jogadores de fora. Como é que você faz isso?

U|lisses - Primeiro, porque eu passei três anos no interior de São Paulo e, assim, conheço o potencial de muitos jogadores. Não trago só por ouvir falar ou por indicação de empresários desconhecidos. Jamais farei isso. Além disso, eu tenho muitos amigos, tanto na área técnica quanto na área de preparação física, que fazem essa indicação com responsabilidade. Agora tem uma coisa: nunca fui para clube algum que os dirigentes pudessem me dizer para formar o time que eu quisesse. Ao contrário, o que, de modo geral, os dirigentes dizem é que estão no vermelho e que eu devo trabalhar com o possível, não com o desejável. No dia em que eu puder formar o meu time, com carta branca dos dirigentes para contratar os jogadores, certamente poderei garantir o título para o clube em que eu estiver.

Sobre os melhores jogadores que você viu em ação no futebol local, aqueles que jogariam em qualquer lugar do país, que nomes você citaria?

Ulisses - Dadão, que eu vi já nos últimos anos dele como jogador, esse está acima de todos. Mas pode-se citar ainda outros craques fora-de-série. Casos, por exemplo, do Mariceudo, Carlinhos, Emilson, Gil, Mário Vieira, Paulinho, Paulo Henrique, Neórico... Esses todos poderiam jogar em qualquer time do Brasil.

 
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro