| Francisco Dandão
 niciado em 2008, o curso de Formação Docente para Indígenas, oferecido pela Universidade Federal do Acre (Ufac), campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, já tem data certa para concluir a formação da sua primeira turma: junho de 2012.
Trata-se de um curso pioneiro, regionalmente falando, em relação à clientela atendida. Uma experiência que deu tão certo que já se pensa na formação de novas turmas, tão logo os primeiros alunos recebam o seu devido grau.
Para saber mais sobre essa experiência, eu conversei durante algumas horas com o coordenador do curso, Manoel Estébio Cavalcante da Cunha, um mestre em Linguagens e Identidade, abnegado pela causa das culturas e da educação indígenas.
Os principais trechos dessa conversa vão transcritos nas linhas que seguem.
Primeiramente, eu queria que você me falasse, Manoel Estébio, das origens desse curso. De como foi que surgiu a idéia e quais os caminhos percorridos para implantá-lo.
Manoel Estébio - O curso nasceu de uma reivindicação dessas pessoas que são alunos atualmente e de outros que ainda não ingressaram, mas que vinham sendo formados desde 1983 pela CPI [Comissão Pró-Índio do Acre] e desde 1999 pelo Governo do Estado. O poder público, a Secretaria de Estado da Educação, só passou a assumir a educação escolar indígena, ou seja, a formação de professores, com apoio mais intensivo, a partir de 1999. Dessa época até 2008, que é quando ingressou a primeira turma aqui do nosso curso, havia uma demanda altíssima e esses professores, organizados em torno da Opiac [Organização dos Professores Indígenas do Acre], junto com entidades indigenistas, como a CPI, a Funai [Fundação Nacional do Índio], o Cimi [Conselho Indigenista Missionário], as organizações locais das terras indígenas, além da Secretaria Estadual de Educação e a Ufac, iniciaram um processo de discussão para implantar o curso. A idéia era a de que, inicialmente, o curso fosse implantado em Rio Branco, lá naquele lugar que o pessoal conhece como "espaço do Jacó" [prédio nas dependências da Ufac, construído por iniciativa do professor e antropólogo Jacó Picoli, com o intuito de ser um centro de referência de estudos sobre culturas indígenas]. Mas aí, em função de se estar construindo a "Universidade da Floresta", o curso foi trazido para cá, para o campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. Mas o curso é, basicamente, o atendimento que a universidade faz a essa reivindicação, que é histórica do movimento indígena, dos professores indígenas.
Na prática, como é que funciona esse curso de Formação Docente para Indígenas?
Manoel Estébio - O curso ocorre em dois semestres anuais modulares presenciais, em Cruzeiro do Sul, com sessenta dias letivos em cada um dos módulos, desenvolvidos no campus Floresta. E, entre um módulo e o outro, tem o que a gente chama de fase intermediária, ou momento aldeia. Nesse momento aldeia, é o instante em que os docentes do curso se deslocam para fazer o acompanhamento deles lá no local onde eles moram. Eles têm disciplinas que são específicas da fase intermediária. Esse momento intermediário, na aldeia, varia entre quinze e vinte e cinco dias. Não pode ser mais nem menos do que isso, por conta de questões de operacionalidade. Além de um custo muito alto, a gente entende que se passássemos mais do que vinte e cinco dias lá na aldeia, poderíamos provocar uma intervenção muito grande na vida deles.
E como é que tem sido o aproveitamento desses alunos no que diz respeito às informações repassadas pelo professores do curso?
Manoel Estébio - Existem alunos que tem excelente aproveitamento, que são receptivos, que aplicam os conhecimentos etc. Mas, a gente teve uma pequena falha na seleção, por falta de equipe docente específica, naquele momento, deixando entrar alunos que não são professores, embora sejam indígenas, e alunos que não são nem indígenas nem professores. Então, nesses alunos a gente percebe um aproveitamento menor. Mas aqueles que realmente estão se formando em serviço, a receptividade é boa, além de eles ensinarem muito pra gente também. A gente que é docente aprende muito com esses alunos.

E quanto à expectativa para uma nova turma, Estébio?
Manoel Estébio - No segundo semestre de 2012 nós faremos uma seleção para o ingresso de uma nova turma. Em princípio serão ofertadas cinquenta vagas. Mas nós sabemos, de acordo com o sistema que gera a demanda, no caso o Estado e algumas prefeituras, que existe um quantitativo de mais de cem professores indígenas para ingressar. Então, nós já estamos prevendo mais, pelo menos, duas turmas: uma para ingressar no segundo semestre de 2012 e a outra para ingressar no primeiro semestre de 2013.
A título de trabalho final, qual é a exigência do curso?
Manoel Estébio - Certo. Uma coisa que ainda não falei foi sobre o tipo de formação previsto no projeto político-pedagógico. Esse projeto se dá com o desenvolvimento de uma fase comum de dois anos, onde todos estudam as mesmas disciplinas. Depois disso, numa segunda fase, eles fazem opção por uma área para a efetiva habilitação. As áreas são linguagem e artes, ciências sociais e humanidades e ciências da natureza. Ao final do curso, eles terão que apresentar um TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] com tema específico da área escolhida. Só que a gente fez o seguinte: em vez de trabalhar com eles um TCC acadêmico, como eles estão se formando em serviço, a gente os orienta e incentiva que eles criem produtos que possam ser revertidos para a escola. Na área de linguagem e artes, por exemplo, dessa turma que vai se formar no próximo ano, alguns alunos escolheram produzir dicionários e cartilhas na língua nativa deles. Na área de ciências sociais e humanidades vai ter a biografia do Luis Aianawá, que era um sábio dessa etnia, recentemente falecido. Na área de ciências da natureza tem trabalho estabelecendo uma relação entre as comidas e as práticas de coletas e plantio tradicionais deles... Então, pelo que nós observamos, vão sair trabalhos bem interessantes. E a idéia é que esses trabalhos possam ser revertidos para as próprias escolas onde eles trabalham, pra ajudar no processo de ensino aprendizagem dos alunos deles.
Para encerrar, eu queria que você me dissesse se existem muitos cursos semelhantes a esse em outros estados brasileiros.
Manoel Estébio - Quem foi a precursora nessa área de formação específica para indígenas foi a Unemat [Universidade do Estado do Mato Grosso]. Ela tem um campus em Barra do Bugre que veio a se tornar Universidade Indígena. A Unemat é a precursora. Depois veio a Universidade Federal de Roraima. Depois dessas duas, outras universidades federais e estaduais formataram cursos semelhantes. O nosso curso foi o terceiro a aderir a esse trabalho da formação específica. Mas hoje em dia são cerca de vinte e três universidades, entre estaduais e federais e mais três ou quatro institutos federais que também ingressaram com esse tipo de formação. Ressaltando-se que essa formação docente é uma demanda que foi gerada a partir da nova Constituição. Isso porque, até antes disso, toda a orientação, no que diz respeito à formação escolar indígena era para que eles ingressassem na comunhão nacional. Essa era a orientação dos militares. A nova Constituição diz que não. Para ela, a função da educação é ajudar a preservação da língua e das práticas culturais ancestrais daqueles povos que ainda a mantém, bem como de recuperar as daqueles que as perderam.
(Publicada no jornal O Rio Branco – 30 de outubro de 2011) |