| É com as mãos que se sobe ao céu | ||||
| Francisco Dandão | ||||
Pesa-me no corpo - mistério antropofágico, minha carne delirante servida em moquecas, meu sangue fugi(va)dio aprisionado em outros tubos -, pesa-me na alma. Pesou-me desde a primeira vez que os vi. Faces de bochechas rechonchudas e coradas, anjos barrocos caminhavam sobre a luz dos vitrais em direção ao meu rosto, numa tentativa lasciva de possuir o meu espanto. E ao desviar minha atenção para o teto eles continuavam lá, eternamente vigilantes. E ao mudar de lugar - fica quieto, diabinho! - eles continuavam a perseguir-me. Os dos primeiros vitrais substituídos pelos de outros vitrais. Os da abóbada, impassíveis, atentos, mudavam a direção dos olhos, como uma segunda sombra. Já nos preparativos para a primeira comunhão, depois do último degrau, depois da porta, dentro da nave-mãe - útero estranho, frio coração, desde a prece inicial - assim na terra como no céu -, sobreveio o primeiro choque. Misturaram-se para sempre pequenos estilhaços do bem (me-quer) e do mal (que para sempre haverá de durar). E eu nunca tive muita certeza se foi feita a vontade de alguém mais do que a da minha mãe - calos nos joelhos, água benta, calos nos dedos, chão de concreto, calos na língua, novela das oito -. Pesa-me no corpo - minha fadiga, pão dormido devorando minhas vísceras, meus receios, vinho amargo afogando meus anseios -, pesa-me na alma. Pesou-me mais ainda anos depois. "É com as mãos que se sobe ao céu; a traição dos sábios começou no dia em que eles pintaram um anjo com asas. Você saberá se eu voltar. Se eu não voltar estarei esperando". O bilhete cifrado e lacônico foi o último presente deixado para mim pelo meu pai. Estranho eco. O ruído do papel dobrando-se, desdobrando-se e redobrando-se entre os meus dedos misturava-se na minha memória - estilete vermelho em caule febril - com a tosse que devorou o vigor do velho nos últimos seis meses da sua agonia. A mensagem misteriosa rondava o meu cérebro. Eu não tinha nenhuma habilidade manual. Gabriel era nome de anjo. Todas as tentativas de dar vida a uma pipa, na infância, tinham sido infrutíferas. Nasciam tortas, desobedeciam ao vento, mergulhavam rumo à terra - demônio escondido, levanta-te e anda, que a minha espada haverá de furar-te os olhos -. Anjo tem asas. Tão fácil seria voar rumo ao horizonte. Pregar um botão - torto -. Esculpir uma pedra - torta -. Aplainar uma tábua - torta -. Eram inúteis as mãos. Pesa-me no corpo - minha busca, cósmica revelação, passos em linha reta devolvendo-me ao mesmo lugar, flores decompostas perfumando meus caminhos -, pesa-me na alma. Pesa-me insuportavelmente agora. Meu pai nunca mais voltou. Está me esperando, eu sei. Desordenado, cego, absurdo combate, deslizo os dedos pelo meu corpo e me detenho na minha excitação. Minhas mãos estão vivas - o jato quente -. Elas são hábeis e me dão prazer - entra em erupção -. Me acariciam como ninguém jamais poderia fazê-lo - e rasgando as entranhas -. Não são necessárias mulheres - viaja por dentro de mim -. Não são necessários homens - enquanto acelero os movimentos -. Não são necessários cheiros - a espera da explosão -. Não são necessários outros toques - contra a parede estuprada do banheiro -. Não são necessárias figuras, corpos, almas - patéticos contornos movediços, difusas imagens escorregadias -. Tornaram-se úteis as mãos. Durante os últimos vinte anos, desde que comecei a ouvir falar em AIDS, tenho repetido três vezes a cada dia o mesmo ritual. A tentação de voar já ficou para trás. Sigo fielmente as instruções da mensagem deixada por meu pai. Nunca, durante esse tempo, sucumbi ao uso da camisinha. Não saberia, mesmo, como colocá-la. Não creio que as minhas mãos-amantes pudessem gostar de um artefato dessa natureza. As orações da infância já ficaram para trás. O poder de subir aos céus está contido nas mãos. Sei que se ainda não subi ao encontro do velho é porque ainda não cumpri com precisão a minha tarefa ou, quem sabe, não a esteja executando na intensidade necessária. Vou continuar até que o céu resolva aceitar-me e eu encontre o velho. E não mais me pese no corpo e não mais me pese na alma. (Publicado na revista Outras Palavras ) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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