Francisco Dandão
 
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  Noite  
         
  Francisco Dandão  
- Janeiro de 1980 -
 
         
 

scurece. Os males apressam o passo. Na esquina da praça, a fumaça do nosso cigarro desliza por entre moléculas de vozes e buzinas de automóveis, que desesperadamente perseguem mecanismos de relógio. Ali perto, no centro da praça, um homem disfarçado em pedra, espada em riste, cabeça em riste, dedo em riste, aponta para muitos lugares ao mesmo tempo. Ainda perto, uma pedra disfarçada em homem, pés no chão, mãos para o chão, olhos no chão, circunvolteia policiando os bancos, desapontando muitos lugares ao mesmo tempo. Além, rosas pintadas num galho verde abrem as pernas para o machismo do vento, e a comunidade gay , aos pares e de braços dados, olha de soslaio e estrangula dedos na força de outros dedos. Menos além, rosas penduradas numa revista, apertadas a um fio por um pregador, ensaiam um aceno de chamada e esforçam-se para demonstrar as suas habilidades como equilibristas. Mais além, uma água parada e coberta de folhas, lembra o seu próprio corpo outrora colorido e a sua própria face outrora límpida, onde os homens vinham mirar-se, enquanto os pombos-correio esqueciam a um canto os bilhetes dos suicidas e ganhavam seu jantar, caídos dos sacos de pipocas.

    Escurece. Não podemos fumar. Nossos corações ficam mais úmidos. O tronco de castanheira apodrecido, servindo de trincheira para os nossos corpos também em decomposição, beija nossas faces. Temos que manter a posição. Não podemos dormir. A segurança do acampamento depende muito desse palmo que conseguimos ver à frente dos nossos narizes e da diferença que temos de estabelecer entre o estrondar de uma folha despencando copa abaixo e a respiração pesada de um boliviano. Temos a mente voltada para três únicos objetivos: cortar, tirar, fazer; árvores e homens, leite e sangue, borrachas e cadáveres. Às vezes, nosso ânimo arrefece. Nessas horas lembramos a figura do nosso chefe gaúcho de dedo em riste, espada em riste, língua em riste, tocando-nos para a frente. Pensamos que talvez um dia ele vire estátua e este campo se transforme em jardim, onde nossos ossos repousarão adubando meninos e flores.

    Escurece mais. Os males esticam as pernas. Deixamos a esquina da praça para trás e cruzamos com ninfas disfarçadas de estudantes, olhares lânguidos de gato cagando na chuva, tentando a todo custo fisgar incautos tubarões. Uma vez fisgados, comidos, digeridos, separados, tubarões e ninfas sairão gabando-se, cada um para um lado diferente.

    Escurece mais. Vaga-lumes acompanham o ir e vir do nosso tórax arfante. Cobras desfilam rebolando o rabo, caçando insetos atrevidos. Não conseguimos vê-las. Sabemos delas pelo chiado das folhas. Encolhemos instintivamente nossas pernas. Elas passam ao largo. Certamente nos acham sujos. Ouvimos falar que elas não comem umas às outras. Bestas. Não sabem o que perdem.

    Noite alta. As vidas que se foram empurram o tempo para a morte. Os gringos apertam o cerco. Os átomos apertam o cerco. Ninguém lembra ou quer saber o que passou.

    Noite alta. As vidas que virão puxam o tempo para a morte. Os bolivianos apertam o cerco. As febres apertam o cerco. Ninguém sabe ou pode adivinhar o que o futuro será.    

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro