Francisco Dandão
 
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  Terra em transe  
         
  Francisco Dandão
(Publicado na revista N'Ativa - Julho de 1995)
 
         
 

voz do outro lado do telefone quer saber se sou eu mesmo quem está falando. Confirmo. A voz informa que é da Prefeitura. Numa fração de segundo mil pensamentos rondam a minha cabeça. Dois deles se fazem mais presentes: esqueci de pagar o IPTU; e querem me contratar para gari. No primeiro caso seria uma tragédia. Eu teria que pagar com multa. E no momento de um crescente processo de miserabilização global, uma multa dói mais do que um chute na região escrotal ("baixo-ventre", sussurram uns anjinhos particulares, remanescentes do DOI-CODI). No segundo caso até que na seria tão mal assim. Eu poderia exercitar um antigo desejo de varrer das nossas ruas os dejetos (alguns dizem "obras") dos ratos que resistiram ao encanto do flautista da lenda. E sem perda de poder aquisitivo, levando em conta os objetos da minha formação (magistério) e da minha devoção (jornalismo).

     Pois bem. Não se tratava de alhos nem de bugalhos (num concurso vestibular a opção certa seria N.R.A.). Pânico contornado. Esperança amordaçada. A voz se identifica. Jorge Henrique. Precisam de um texto (ele chama "artigo") para fazer parte de uma revista. Quer saber se eu topo. Vivo quinze minutos de fama nos dez segundos seguintes. Vislumbro na proposta minha grande chance de mudar para New York. Paulo Francis que se cuide. Mas mudo de idéia rapidamente. A América, com os seus 500 anos, é muito jovem para mim que não gosto de ninfetas. E eu não uso mais cabelos black power , nem espalhafatosas calças bocas-de-sino, nem cavanhaque, nem anéis multicoloridos. E o "Harlem" que eu vejo nas telas de Spielberg não bate com a minha visão de paraíso. E eu nem mesmo sei apertar um gatilho. Desisto definitivamente dos ianques e penso que talvez seja melhor aproveitar a oportunidade para desbancar o Gilberto Dimenstein, ou o Carlos Heitor Cony, ou o Gaudêncio Torquato, ou o Ignácio de Loyola Brandão, ou o Luís Fernando Veríssimo. Esses trocam carícias com suas teclas/amantes aqui mesmo nos trópicos. Então eu topo. Fechado.

     Sinto falta de um fio de bigode para selar o acordo. Mas aceito e sei que entro num caminho sem volta. Via de mão única, como as duas pontes que adornam o espaço de Rio Branco, sobre o rio Acre. E se experimentar voltar, me alertam, pode até haver uma trombada com algum Toyota dirigido por algum detento "licenciado" da penitenciária "Francisco de Oliveira Conde" (qualquer semelhança com fato recente da vida real, favor creditar os direitos autorais na conta do destino). Então sigo em frente e pergunto pelo tema. Livre. E agora? A palavra mágica foi dita, mas o Capitão Marvel não apareceu. Constato que não sei o que fazer com a minha liberdade. Procuro um espelho (qualquer outra coisa, Narciso, o mito, acharia feio) onde eu possa pelo menos refletir. Um homem livre para que eu possa usar como modelo. Lembro de Ícaro. Mas logo desisto. Com esse exemplo qualquer sol me mandaria, rapidinho, de volta ao solo. É que as asas dele eram curtas e a cera que as prendia era de má qualidade.

     Stop para meditação. Preciso decidir sobre o tema antes que acabe o espaço (nesse caso tudo se acabaria no preâmbulo). Resolvo procurar um oráculo para ouvir os conselhos de um mestre zen. Fecho os olhos e viajo rumo a ele, que está me esperando na penumbra. Mas quando chego perto me surpreendo. Dentro da batina branca quem se mostra é a Sharon Stone. Penso que a danada deve estar sem calcinha (para imitar a Lílian Ramos, é claro). E aí, da mistura de cinema e sexo é que me vem a revelação. Pois que a Sharon é um símbolo (como poderia ser a Sônia Braga, a Brooke Shields, a Sofia Loren e mais muitas linhas de etcétera) da fantasia e o sexo é a fonte da vida. Das mesmas fantasia e vida que estão correndo o risco de ir para o espaço logo, logo, caso não sejam repensados, rapidamente, os conceitos do humano e do fraterno. Isso mesmo. Quem duvidar que dê uma olhada em volta. Vai descobrir mais sangue sob os pés do que toda a tinta vermelha usada pelo Quentin Tarantino em "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction". Sem contar que se aproxima o finzinho do milênio, quando se costuma esperar a renovação da semente sobre a terra (olha o Nostradamus aí, gente!).

     Tô certo ou tô errado? Não dá pra saber? Pois então, vem comigo (e pode trazer o Goulart de Andrade, que eu não me importo) refrescar as idéias. Tomemos a minha letra como nave e enveredemos em excursão pela dimensão do trágico. Lente grande angular: cientistas dominam o átomo, soltando cogumelos pelo ar; de um tubo de ensaio um vírus carimba seu passaporte para veias e brinca de malmequer com os órgãos das vítimas; terroristas explodem Oklahoma, empilhando pedras e células num mesmo escombro. Plano mais fechado: becos sem saída, ruelas fedorentas e grandes avenidas são tomadas de assalto por uma multidão de meninos andrajosos; policiais sobem um morro e metralham qualquer coisa movente, inclusive sua própria sombra; aprendizes de kamikazes, ensandecidos por trás de seus volantes, misturam ferros e ossos retorcidos com o negror do asfalto. Close: a hepatite se rebela e toma conta da coroa de Galvez; crianças cheiram cola sob uma ponte de metal, enquanto esperam o teto da escola que o último temporal derrubou; justiceiros moem a porrete um psicopata e dormem pedindo vida longa para pegar o próximo que se meter a besta.

     É isso. A terra está em transe, como se rendesse um tributo mórbido a Glauber Rocha. O mistério inscrito na alma predadora dos homens muda de forma cada vez que alguém se aproxima da chave que o decifra. E isso faz com que todos demorem a perceber como serão, sempre, infrutíferos os mergulhos em busca de riquezas num universo de miseráveis. O tempo urge. O cerco da violência insana se fecha em torno de todos. Os braços cruzados se julgam intocáveis. Indiferentes, esperam qual vai ser a bola da vez. Preferem ignorar que fazem parte do jogo.

     Até quando?

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro