| Marcas do discurso evangélico | ||||
| Tese de doutorado desvenda características da oralidade de líderes religiosos acreanos | ||||
| Francisco Dandão | (Publicado no Jornal da Ufac - Outubro de 2006) |
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Usando como referencial teórico-metodológico o "pensamento complexo" do intelectual francês Edgar Morin, o professor acreano estudou as crenças, as atitudes e os comportamentos políticos das lideranças evangélicas do Acre, analisou os desdobramentos da visibilidade dos evangélicos no campo político e social, e verificou as posições ideológicas, éticas, políticas e eleitorais dos discursos das referidas lideranças, analisando a conjuntura da participação delas nas eleições de 1998 e 2002. "A amostra da pesquisa de campo compreendeu cento e quatorze entrevistas com líderes evangélicos históricos, pentecostais e neopentescostais, sendo que os resultados evidenciaram que houve, nos últimos anos, um crescimento positivo dos grupos em forma de maior consciência e envolvimento em cidadania. Fora isso, um detalhe que eu considero relevante é o de que quanto maior o nível educacional, maior a preferência por partidos de esquerda", afirma Enock Pessoa. À guisa de conclusão, pelo menos três grandes evidências foram constatadas pelo pesquisador: as lideranças evangélicas históricas se posicionam politicamente mais à esquerda, têm maior renda, mais tempo de filiação religiosa e são mais favoráveis à entrada de evangélicos na política; os pentecostais têm renda e instrução média, e também preferem mais candidatos à esquerda; os neopentescostais respondem às questões políticas de modo mais religioso e tem maior preferência por candidatos de direita. Política como instrumento de melhoria de vida Sobre a possibilidade de a política vir a ser um instrumento de melhoria de vida para as pessoas em geral, os entrevistados demonstraram um elevado grau de ceticismo. "O descrédito na figura do político como benfeitor dos mais carentes e socialmente excluídos é enorme. Apenas uma parte das pessoas que eu entrevistei acredita que se possa mudar o estado de coisas em favor dos menos favorecidos", diz Enock Pessoa. Uma entrevistada, de 23 anos, professora de uma escola bíblica, com curso superior em andamento, por exemplo, declarou que "os donos do poder, de um modo geral, são gananciosos, porque tudo o que fazem é em prol do seu próprio interesse". Outro entrevistado, este de 48 anos, pastor de uma igreja, com curso superior completo, afirmou que os políticos "só querem saber de melhorar a vida deles mesmos e dos seus familiares". De acordo com Enock Pessoa, para muitos dos entrevistados as desigualdades sociais são reforçadas pelos próprios políticos, ao fazerem uma política de modo egoísta, clientelista, excludente e corrupta. "Os políticos, em sua maioria, roubam dissolutamente, e por isso produzem as grandes desigualdades sociais do nosso país", afirmou um rapaz de 21 anos, líder de um grupo de jovens de uma igreja pentecostal. Mas apesar da descrença generalizada, é preciso salientar, segundo Enock, que boa parte dos entrevistados acredita que a sociedade organizada pode mudar essa situação, por entender que, embora poucos, ainda existem bons políticos. "A política", disse um entrevistado, "não deve ser usada para ascensão pessoal, mas para o bem comum da humanidade". No final das contas, diz Enock, "analisando a posição dos evangélicos do Acre, em relação às suas escolhas partidárias, percebe-se que eles estão avançando em consciência política e cidadania. As igrejas, além de lugar de divulgação das doutrinas cristãs, também têm espaço para a prática do diálogo, com a troca de experiências sociais e políticas". Discurso parlamentar Não satisfeito com a tese que produziu para conquistar o título de doutor em Psicologia Social , Enock Pessoa continua investigando a relação entre religiosos e políticos. Tanto que agora se dedica a orientar estudantes de Ciências Sociais da Ufac em pesquisas nesse sentido. É o caso da monografia "O discurso dos parlamentares e sua relação com entidades religiosas", realizada na Câmara Municipal de Rio Branco, no período de agosto de 2005 a julho de 2006, pela acadêmica Eliana Maia de Lima. Três eixos nortearam este trabalho: verificar as gradações nas relações entre religião e política nos parlamentares de grupos religiosos com base nas orientações da ética de solidariedade humana; estudar o envolvimento dos vereadores em ações políticas concretas e o grau de comprometimento com os seus eleitores; e analisar as crenças, atitudes e comportamentos políticos dos referidos parlamentares, a partir das hipóteses da origem, manutenção e conseqüências da religião. Entre as conclusões da pesquisa, as de que os parlamentares evangélicos, embora em minoria na Câmara Municipal de Rio Branco, apresentam bem mais projetos. Mas não divergem dos católicos quanto à necessidade de ações que possam melhorar a condição de vida da população. O que é interessante notar, diz Eliana Lima, é que "motivados às vezes por interesses de uma possível reeleição, alguns parlamentares, tanto católicos quanto evangélicos, contradizem seus próprios discursos". Hipóteses de conseqüência da religião As conseqüências que se esperam da religião, não só para o indivíduo, mas também para a coletividade são derivadas da hipótese de que ela possa trazer efeitos no controle dos impulsos individuais, provendo sentido, identidade e auxílio para as ansiedades e frustrações que a vida e a morte ofertam às pessoas. Algumas funções da religião, como propiciar identidade e sentido na vida, podem ser muito importantes para que as pessoas consigam buscar algum tipo de integração social, não no sentido funcionalista de integração e estabilidade efetivas entre o indivíduo e o social, mas como tentativa de realização da própria vida. A religião induz no indivíduo uma melhor integração e ajustamento pessoal, segundo alguns autores. Hartmann, em 1958, afirmou que a principal função da religião como integradora dos processos mentais interiores são sintetizados na adaptação social. Os evangélicos do Brasil podem ser exemplos neste particular. Quando uma pessoa passa por um processo de conversão religiosa, algo lhe acontece em termos de mudança psíquica e social. Frankl (1990) teoriza que o ser humano tem uma orientação primária para a busca de sentido. Para ele o grande mal do nosso tempo é a ociosidade, o tédio, a falta de objetivo e de sentido. A religião seria o instrumento de busca de sentido para a vida, de achar razão para viver em meio aos infortúnios e tragédias da vida. É o tipo de relacionamento espiritual do ser humano que o habilita a dedicar-se integralmente a uma causa, de livre e espontânea vontade (Rosa, 1971). Draper, em 1969, enfatizou a sublimação dos impulsos libidinosos e da agressão através da religião. Spiro, em 1978, sugeriu que a neurose e a psicose não são os únicoas meios de resolução dos conflitos psíquicos, mas existem defesas culturalmente constituídas para manter o sistema sócio-cultural. Nas sociedades tradicionais a religião é o principal meio de se conseguir a resolução dos conflitos. As crenças religiosas conseguem transmitir segurança e sentido para o indivíduo... (trecho da tese O Discurso Evangélico como Expressão de Cidadania ). |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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