| O mistério da representação | ||||
| Francisco Dandão | - Junho de 2006 - |
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O caralho enorme e sem cabeça dele rasgando a minha carne cravava pregos na minha alma. E eu, que nunca tive a menor intenção de ajudar ninguém a perdoar os pecados do mundo, chorava por dentro, queria mais era que tudo se fodesse, enquanto pedia para ele meter com mais força. Nesse instante eu fechava as mãos e implorava mentalmente para o céu desabar rápido e de uma só vez. E também lhe dava cotocos pelas costas enquanto desejava vê-lo pendurado pelos bagos num laço de enforcado. Fazia muito tempo que eu deixara de o querer. Acho até, agora relembrando os fatos nessa sala nojenta de paredes descascadas, cheia de manchas que parecem sangue seco, que nunca o quis de verdade. Amor de carnaval, fruto de uma embriaguez momentânea, não pode ser verdadeiro. A carne pulsa, é verdade, dá saltos no ar impregnado de lança-perfume, clama por um orgasmo que complete o desvario coletivo, mas, amor de verdade mesmo não pode ser. Naquele dia, eu queria era trepar, não amar. Pena que eu só descobri muito tarde, alguns meses depois, quando ele já tinha me levado para morar na casa dele. Tudo nos trinques, como manda o figurino de um funcionário público que descobriu as falcatruas de um governador ladrão e, por conta disso, o estado compra o seu silêncio com ajudas de custo e diárias de viagens nunca feitas. Na casa, tudo de bom, do micro-ondas à televisão gigante. Só o carro se mantinha o mesmo, um Fiat 147 mais pra lá do que pra cá. "Pra não dar na vista", ele dizia. O sentimento de total repulsa aflorou de uma vez, aos borbotões, como uma daquelas diarréias causada por maionese contaminada, no dia em que eu conheci o Marcão. Negão alto, barriga ligeiramente dilatada, cabelo rastafári, voz mole, típica de sujeito que anda sempre de cabeça feita, eu me passei pro lado dele assim que o vi falando umas coisas estranhas para um grupo de meninos que o rodeava - depois ele me disse que falava pros meninos, mas as palavras eram endereçadas a mim. Era um fim de tarde. Eu esperava o ônibus no ponto na frente da loja onde eu trabalhava. Quase nem reparei no grupo ao meu lado, tão angustiada que eu estava com a obrigação que me esperava daqui a algumas horas, no chamado leito conjugal. Só quando um dos meninos irrompeu numa gargalhada gostosa, como que saída das próprias vísceras, foi que eu passei a prestar atenção na conversa. E me derreti toda a cada verbo que saía daquela boca que parecia de um anjo, mesmo que caído. O meu ônibus chegou cerca de quinze minutos depois. O negão se despediu dos meninos e subiu atrás de mim, quase cheirando o meu rabo, o safado. Só havia lugares vagos bem no fundo, antes de passar pelo cobrador. Nem preciso dizer que ele sentou ao meu lado e puxou conversa. Papo furado, que eu ouvi só aos pedaços, perdida que estava entre o drama de chegar em casa e meio que desesperada para que aquele desconhecido pedisse logo o meu telefone ou, pelo menos, o meu endereço eletrônico. Ele não me pediu nada, só me perguntou se eu era casada. "Enrolada", respondi-lhe entre os dentes, quase sussurrando. "Mas nada que possa dificultar uma amizade. Ou você é daqueles que não acredita em amizade entre um homem e uma mulher?", completei. Ele balbuciou uma resposta, mas eu nem lembro do que ele disse. Só sei que dei o número do meu celular enquanto me levantava rápido para não passar do ponto onde eu deveria ficar. "Vê se não some!", ainda tive coragem de dizer. Ao entrar em casa, percebi que a minha existência iria se perpetuar na carne daquele homem. A euforia até me deu forças para fazer a macarronada que o canalha tanto gostava. Ele comeu como um porco. Quando sentiu o cheiro de molho de tomate misturado com carne moída, sequer foi ao banheiro lavar as mãos. Suado pelo dia todo na rua, com um tanto de fuligem no colarinho e as unhas ligeiramente sujas, comeu até o último fiapo e arrotou alto, depois do gole derradeiro na latinha de cerveja. A mensagem no celular eu vi logo ao acordar pela manhã. " Sonhei com você a noite inteira. Um sonho do mais profundo amor e de um sexo desvairado. E agora, acordado, sonho em realmente fazer acontecer ". Li e reli. O frio na barriga era o indicador de que as palavras daquele sujeito que eu só conhecia há um dia me atingiam no mais profundo do meu ser. E embora eu duvidasse que ele tivesse realmente sonhado comigo, o que eu mais queria era encontrá-lo e rodopiar na beira do abismo junto com ele. Fiquei louca para responder, dizer pra ele vir logo me ajudar a cumprir o meu destino. Mas não respondi, fiquei esperando ele dar sinal de vida outra vez. Na minha cabeça, embora eu me considere uma mulher emancipada, as palavras da minha falecida mãe falaram mais alto: "Mulher não pode dar fácil, minha filha, não pode sair dando logo assim de cara, perde o valor, o cara come e vai embora, tem que cozinhar o pretendente um pouquinho, se der na primeira vez, nunca mais ele aparece". Mas eu nem precisei esperar muito. No trajeto para o trabalho, o celular tocou. Li no visor o mesmo número que terminava a mensagem da noite. Atendi tentando fingir desinteresse. Depois do "oi, tudo bem?" de praxe, ele foi logo perguntando se eu tinha visto a mensagem. Diante da minha confirmação, fingiu um acesso de tosse, desculpou-se falsamente pela ousadia e quis saber o que é que eu tinha achado. Respondi que o achei um tanto apressado. Mas, aceitei sair com ele depois do expediente. Ele foi me buscar num táxi. Antes de abrir a porta para eu entrar, explicou que o seu carro estava na oficina. Disse também que tinha o tempo contado, que dali a poucas horas teria que voltar para a escola onde dava aulas nos dois últimos horários, que eu perdoasse o mau jeito, mas o que ele gostaria mesmo de fazer era me levar para um motel. Tão assim abruptamente que eu me peguei em pânico. Um medo que me paralisou e fez os meus protestos soaram todos sem nenhuma consistência. Eu dizia não, que as coisas comigo não funcionavam assim, mas não ofereci nenhuma resistência. Como se em transe, quando dei por mim eu era a imagem de uma ferida aberta no meio do orgasmo mais louco da minha vida. E depois de um banho rápido, como se aquela noite fosse a última das nossas vidas, ele me atou pelo avesso e me possuiu outra vez. E por alguns momentos eu me vi com todos os problemas resolvidos, esquecida do desgraçado, que a essa hora já devia ter chegado em casa. De fato, quando cheguei em casa o desgraçado já estava me esperando. E antes de qualquer coisa foi logo me perguntando onde eu andava, por que eu tinha demorado tanto. Ensaiei uma desculpa furada, que andara um pouco pelo comércio em busca de um xampu novo que uma amiga houvera indicado, mas acabei não encontrando. E depois, para completar, o ônibus ainda achara de dar o prego logo depois de sair do ponto onde eu subi e que, assim, tivemos que esperar o próximo. Pelo olhar desconfiado, o desgraçado não acreditou numa palavra do que eu disse. Mas a bronca mesmo foi quando eu, na pressa de preparar o jantar, botei sal demais no bife de fígado que ele me pedia há mais de duas semanas. Eu olhava para a caçarola e via o negão com quem eu estivera antes saindo das chamas do fogão, com um demônio me chamando para segui-lo por todos os doces caminhos do inferno. O desgraçado comia, cuspia, praguejava e me dizia que alguma coisa não estava certa. Aquela foi uma noite em que eu não consegui dar pra ele, nem na base do fingimento. Fui deitar de bermuda jeans. Para quem sempre ia deitar só de calcinha, uma bermuda foi afrontoso para o desgraçado. Mas, como ele tava doido pra me comer, até que o protesto foi ameno. Ao invés disso, ele tentou botar a mão nos meus peitos por baixo da camiseta. O toque me parecia o de uma serpente escorrendo a pele fria pelo meu corpo. Da repulsa sobreveio até uma ânsia de vômito. Aí o tempo fechou de vez. A minha demora em voltar pra casa, o bife salgado do jantar dele, o meu deitar para dormir de bermuda, a recusa do sexo de todas as noites, a soma de todos os bloqueios emergindo como um cogumelo num campo cheio de bosta de boi depois de uma chuva torrencial, tudo isso foi demais para a cabeça do desgraçado. E ele passou dos carinhos ao desvario. E dormiu me ameaçando: "Alguma coisa não está certa. Mas no dia em que eu descobrir que sou corno, mato você e o gaiato que se meteu a besta!" Na minha cabeça, dentro de poucos dias tudo se resolveria. O professor, que já tinha conseguido o que queria ao me levar pro motel, nunca mais apareceria e eu acabaria guardando daquele dia só uma doce lembrança. Mas aí a coisa desandou. De manhã já havia uma nova mensagem no meu celular: " Você me deixou com gosto de quero mais. Quando puder, liga pra mim ". Fiquei tão feliz que errei na força quando escovei os dentes. Tanto que as gengivas começaram a sangrar. E na minha alucinação eu entendi o sangue como um recado de renovação da vida. Liguei assim que coloquei os pés na rua. A voz mole dele do outro lado da linha, como saída da garganta de um sujeito que acabou de fumar um cigarro de maconha, fazia a minha barriga ser percorrida por uma espécie de calafrio e o meu baixo ventre se contrair numa espécie de espasmo anunciador de futuros prazeres. E na mesma noite, com se o tempo estivesse a cada segundo ganhando distância do seu antes, lá estávamos nós novamente na cama repetindo as secreções da noite anterior. E assim, uma noite atrás da outra, ficamos viciados um no sexo do outro. E com o vício, que nos fazia telefonar várias vezes ao dia e morrer de ansiedade para chegar a hora de encontrar, acabamos ficando descuidados. As evidências foram se acumulando. Como eu mentia demais, de vez em quando caía em contradição. Até que o desgraçado lá de casa me apertou e eu acabei contando tudo. Quer dizer, tudo não. Omiti muitos detalhes e garanti-lhe que havia saído apenas uma vez com o professor. Para minha surpresa, o desgraçado reagiu com a maior calma do mundo. Chamou-me de covarde, é verdade, disse-me que eu era uma idiota, que o sujeito queria somente transar comigo e que agora, quando eu dissesse que nós terminamos, não iria me querer mais. Mas tudo isso sem gritos e nem porradas. Eu nem acreditava que as coisas poderiam ser tão fáceis. Ele ali dizendo que não sobravam mágoas, que eu simplesmente poderia pegar as minhas coisas e ir embora, ser feliz, seguir o meu destino. A única ameaça que o desgraçado me fez, foi a de que se o professor não ficasse comigo, aí ele ia entrar na parada. Contra mim, não contra o professor, que na cabeça dele não tinha culpa nenhuma, e que apenas cumpriu o dever de um homem de dar uma cantada em toda vagabunda que anda pela rua e dá confiança para quem se aproxima. "Se ele não lhe forçou, minha filha, não botou faca no pescoço, é porque você mesma quis. E assim, o que é de gosto, deve-se estufar o peito", disse o desgraçado. Saí de casa e fui para uma pensão barata. Modestíssima, mesmo. De mobília, somente uma cama de solteiro, um guarda-roupa sem chave na porta, um ventilador em cima de uma cadeira e baratas de tamanho avantajado que faziam do assoalho passeio público. O banheiro ficava no fim do corredor e não tinha água quente. Mas não me incomodei nem um pouco com a indigência, tão feliz que eu estava com a nova situação. Eu havia deixado o desgraçado para trás e estava caminho de um novo amor. A ficha, entretanto, logo começou a cair. O professor começou a dar desculpas para vir ao meu encontro. Muita coisa na escola, com o fim do ano chegando, reposição de aulas atrasadas, cadernetas para ajustar, correção de trabalhos, elaboração de provas, reuniões do conselho de pais e mestres. E, para completar, uma namorada antiga, com quem tivera um filho, resolvera pedir uma mesada. "Quando essa fase passar, eu vou te buscar para morar comigo", dizia ele nas raras vezes em que atendia ao telefone. O desgraçado, por sua vez, vivia sempre por perto. Deixara-me sair de casa numa boa, mas agora não saía da minha cola. E sabia tudo de mim. Pouco mais de um mês depois da nossa separação, me abordou na saída do trabalho e disse que queria falar um pouquinho comigo. Sentamos num bar e ele, num tom absolutamente cordial, mas de total segurança no que dizia, deu-me a sentença: "Estou certo de que o seu amante não vai lhe assumir. Mate-o e volte pra casa. Se você não matá-lo, quem morre é você". Sentenciou-me e saiu assobiando. Não tenho certeza qual era a melodia, mas acho que era o tema do filme "A Primeira Noite de um Homem", que eu vivia assistindo no DVD todas as vezes em que queria sonhar com o Dustin Hoffman em pele de adolescente. Nem sempre acontecia. Às vezes o sonho não vinha. Mas na noite em que dava certo, eu me sentia a própria senhora Robinson ao acordar no dia seguinte. E o vazio desmedido de todas as manhãs se esvaía na memória do que nunca existiu. Em princípio, resolvi que não iria obedecer. Mesmo que o professor não me quisesse mais, eu tinha vivido grandes emoções ao lado dele. Não me querer, eu pensava, era uma opção dele. Eu não gostava da situação, é claro. Eu ali, disponível, e ele escorregando, sem querer me assumir. Mas nada disso era suficiente para, sequer, desejar-lhe mal. Além do que eu nem imaginava como seria matar uma pessoa. O desgraçado que se lixasse e tratasse de curtir o próprio chifre. Ele que tratasse de lavar a sua honra. A minha decisão estava longe de resolver os meus problemas. O desgraçado passou a me perseguir e a me assustar das formas mais inusitadas. Ligações mudas no meio da noite, carros que surgiam do nada e passavam quase me atropelando quando eu estava no ponto do ônibus, pivetes que me espetavam canivetes e levavam o meu dinheiro, vidros quebrados na janela e até um homem com carteira de policial que me abordava de vez em quando para o que ele chamava de "revista de rotina". Eu havia jurado que não incomodaria o professor por nada desse mundo. Mas, levando em conta o inferno que eu estava vivendo, resolvi procurá-lo na escola. Primeiro, ele fez que não me viu. Depois, quando percebeu que eu iria ficar por lá até abordá-lo, ele falou comigo. Marcamos para conversar depois da aula. Como o tempo demorou a passar naquela noite. Revi várias vezes toda a minha vida, desde a cidadezinha perdida no interior do nada até aquele momento, 34 anos depois, esperando ninguém. Fomos para um boteco sórdido, fedendo a mijo podre e suor ardido, cheio de bêbados sujos e prostituas mirins, esquálidas dentro da sua própria miséria. Difícil acreditar, pensei, enquanto olhava para a calçada, que uma menina daquelas pudesse agüentar um pau. E, mais difícil ainda, compreender o que é que um homem vê numa menina daquelas. Os bêbados, por sua vez, demonstravam uma felicidade estranha, como se do outro lado do copo um paraíso com mil virgens estivesse à espera deles. Não sei exatamente porque o professor me levou ali. Também não cheguei a perguntar-lhe. Mas imagino que ele, sempre disposto a distribuir lições a quem estivesse por perto, queria me mostrar através daquelas metáforas sociais equilibradas em duas pernas e prenhes de uma palpável espécie de caos que o meu drama era nada em comparação com o drama deles. Que eu tinha sorte, comparada com aqueles projetos de espantalhos. Mal pude dizer-lhe os planos e as últimas ameaças do desgraçado. O professor praticamente não me deixou falar. Disparou a filosofar enquanto virávamos as doses de caipirinha que um garçom se apressava a trazer logo que via os nossos copos vazios. Mais ou menos duas horas e dez doses de caipirinha depois, a única coisa que o meu cérebro conseguia decodificar na voz do professor era a parte em que ele falava da cicuta que levou o pensador grego Sócrates à morte. Parece que ele me induzia ao suicídio. Acabei adormecendo embriagada sobre a mesa. Acordei com um barulho distante de uma sirena de policia, sacudida por dois sujeitos que me punham algemas nos braços. No chão, o professor botava pela boca uma baba nojenta misturada com o sangue mais bonito que eu jamais vi em toda a minha vida. Ao lado do corpo dele, um vidro com um pó branco derramado. Sobre a mesa, dois copos de caipirinha. O meu, completamente vazio; o dele, com dois dedos de um líquido leitoso toldando o fundo. Sou acusada de ter posto veneno de rato na sua bebida. Eu não lembro de nada disso. Eu não tinha motivos. Mas os policiais insistem que eu cometi esse crime. Não querem nem saber dos testemunhos de uma das prostitutas mirins e de um bêbado, que juram ter visto um homem barbudo tomando uma dose com a gente. Pela descrição, parece demais com uma ilustração que eu vi num livro de filosofia. Mas também pode ter sido o desgraçado do meu ex que me seguiu até aqui só pra se vingar. Experimentei inúmeras vezes o mistério da representação até chegar nesse momento aqui na frente do delegado. Mas agora, ao contrário dos gemidos fingidos e do rebolar forçado, falo a verdade... |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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