| Caminho para o infinito | ||||
| Francisco Dandão | - Verão de 1980 - |
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As histórias do mundo começaram a ser escritas quando ele chegou. Não se sabe, entretanto, o dia certo da sua chegada. A luz tinha escorregado por entre os fiapos de um eclipse e as pessoas tinham se escondido atrás de suas próprias frentes. Quando a luz voltou, ele já estava lá. Desde então começou a seguir os passos da sua sombra. Do alto do seu comprimento olhava em volta e os seus olhos eram como faróis, evitando que as cobras se batessem contra os próprios destinos. Mirava longe. O horizonte existia. Muitas vezes fora em busca, e o horizonte lá, no mesmo lugar, desafiando-o. Um dia olhou para trás, e o horizonte lá no lugar onde ele estivera há pouco. Foi aí que resolveu parar. Seria por pouco tempo. Distraiu-se. Tem permanecido. Mas precisa ir. Já parou demais. Percebe uma força estranha tentando tirá-lo do lugar. Sofre. Muitos cipós se enroscam no seu corpo e isso torna impossível qualquer mobilidade. No seu dia-a-dia a rotina nunca teve lugar, mas ele tem uma recordação especial de um batalhão de formigas que passavam todas as manhãs. Elas cheiravam os seus dedos e passavam sempre na mesma direção. Esta passagem durou uma estação que durou toda uma vida que não passou. No verão seguinte vieram outras. Trabalharam e morreram. Vieram outras. Morreram e trabalharam... Não saía do lugar, mas já sentia o tronco inclinar-se. Queria apenas ganhar tempo. Cedo ou tarde a força o arrancaria dali. No seu lugar ficaria apenas um buraco. Talvez alguém chegasse e se plantasse no mesmo lugar. Não queria ir empurrado. Mas já lhe tinham dado bastante tempo. Começava a suar. Era absurda a partida. Tentou argumentar com a força. Disse-lhe que os homens podiam crescer nas cabeças uns dos outros. Ela era surda. Programada. Os homens não podem crescer nas cabeças uns dos outros. O máximo que os homens podem é darem-se as mãos. Nas suas cabeças só podem crescer fios e idéias. Nos seus fios só podem crescer cavalos a vapor e nas suas idéias esperanças. A força empurrava e ele recordava. Já resistira a muitas tempestades. Mas esta, ele sentia, iria derrotá-lo. A primeira investida tinha sido dos mosquitos. Eles ficaram durante muitos metros de cabelo. Zumbiam sem parar, tentando inocular-lhe, poros a dentro, o curare da sua fantasia. Zumbiam, dançavam, acendiam maravilhas, e ele parado, resistindo, destilando sua vontade de ficar. Uma vontade que oscilava a cada empurrão, fazendo do balanço um instintivo aceno de adeus. O aceno de adeus foi tornando-se cada dia mais intenso. Insuportável. As costas doíam-lhe em escala crescente a cada segundo que ultrapassava sua rebeldia. Um rumor de terra rachando parecia-lhe um arauto, anunciando a sua queda. Brutalmente sua base ia sendo arrancada. A terra não mais queria tê-lo pelos pés. Queria abraçar o seu corpo inteiro. O queria para fundir-se com ele. O queria para muitos outros ele. A fecundação foi o argumento final. Quem lhe disse foi o redemoinho. O mesmo que amedrontava os meninos, porque seus pais lhes diziam que era o diabo dançando. Ele capitulou. Antes de se afogar na terra lançou um olhar para o céu. Sabia que daqui a algum tempo iria ser vapor. O azul estava a um instante! |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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