Francisco Dandão
 
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  Frutos envenenados contra uma apólice de seguros  
         
  Francisco Dandão
Texto vencedor do Concurso de Contos Guimarães Rosa, promovido pelo Centro Acadêmico de Letras da Universidade Federal do Acre - Janeiro de 1986
 
         
 

u e o outro vínhamos caminhando de nenhum lugar. Durante a caminhada, a certeza maior era o medo de perder definitivamente as cores que pingavam esporadicamente das nossas faces. Dias, noites, sol, estrelas nunca existiram. Tudo era, apenas, alternadamente, em porções iguais, claro e escuro. Num lugar chamado ontem - soubemos o nome por um risco de fumaça no céu que voltava de sobre as nossas cabeças em direção a depois da partida - despimos uma pequena réstia de pálidas emoções e desatrelamos os nossos dedos, terrivelmente descarnados, a essa altura, pelo roçar de muitos movimentos.

     O outro e eu estávamos parados em todos os lugares. Enquanto permanecemos, a dúvida maior era a coragem de descorar o arco-íris que salpicava cores ininterruptamente na raiz dos nossos cabelos. Espaço, momento, movimento, direção ultrapassavam-se e roncavam, misturando suas vozes e transmitindo emoções. Nada era igual. Num tempo sem nome - soubemos disso pelo fato de ele não ter sabor e a sua vida ser regida apenas por um breve pulsar - vestimos uma máscara de amianto e a recobrimos com cera para enganar os elementos e convencer a nós mesmos que éramos vulneráveis, mas sabíamos nos proteger, usando como principal escudo a própria fragilidade.

     Eu sem o outro caminhava e parava e, como um pêndulo, às vezes, deixava cair ao longo e através do corpo todos os meus fluídos. Mesmo, a essa altura, sendo nectópode, nunca ousei me diluir na urina para escorregar pela corrente até o próximo abraço. Perder era o fim. Ele sabia disso e tripudiava quando o furacão dos dramas ganhava mais intensidade, do mesmo modo como rastejava pelo cheiro quando as gargalhadas esvoaçavam entre as sombras da estrada. E na hora em que eu teimava em manter a situação de independência não sentia o ferir das luzes nos meus olhos. E se elas não feriam eu acabava ficando sem um dos meus contatos.

     O outro sozinho não caminhava nem parava. Apenas ensaiava um movimento, quando percebeu que poderia voar até o cume da sua mudez. Mas o nunca era ínfimo para as suas ameaças. Preferível seria transportar suas vísceras para uma gruta e tentar, através de uma alquimia qualquer, criar os próximos mistérios de todas as dimensões. Assim, talvez, rodeado de ruídos e sem cristais como adorno, preservaria a espécie dos vendavais e dos girassóis. Faltava-lhe, no entanto, o estalo. Sem o sopro todos os estímulos seriam rechaçados pela dormência dos sentidos, que, a propósito, não são cinco, como apregoam; é apenas um: o telefone.

     Depois disso o mundo explodiu e dos nossos fragmentos - meus e dele - formou-se o bando. Homens carregando o estigma do sono, como se nos sonhos estivessem contidas toneladas de fezes para escreverem a parte fétida da sua tragédia. Homens carregando o estigma da fome, como se nos intestinos estivessem empilhadas cartas de amor que espalhassem a sua mensagem pelas artérias de um corpo onde os poros estivessem lacrados com invioláveis placas metálicas. Homens carregando o estigma da sede, como se todas as fontes nascessem da essência do beijo. Homens carregando o estigma da vida, disfarçando sua angústia com cantos, orações e ameaças sobre o desconhecido.

     Depois disso surgiram as lendas. E quando a razão virava as costas ante as indagações, os joelhos dobravam-se inertes, proclamando um milagre. Este, logo mais virava ciência. Buscava-se novo milagre. Enredado nesse fenômeno cíclico, o tédio se fez presente no grupo e os indivíduos começaram a dividir-se. Primeiro, em outros grupos; depois, em átomos. O sangue não importava, os olhos não importavam, não importava a dor. Apenas importavam os botões, que, em última análise, lembravam um símbolo fálico, tal a sua insistência em voltar para cima depois de pressionados para baixo. E foram esses botões que, durante um brevíssimo período, brincaram de esperança, apesar de derrubar um longo tabu existente entre os grupos, substituindo o verde pelo chumbo.

     Depois disso não teve depois. Parece ser agora. Parece não ser nada. O grupo, que já não era, acreditou na fênix e virou cinzas. Mas o lado ficou vago. Somente o vácuo e um eterno assobio que, muito longe - nós imaginamos - guia-nos para um túnel. Eu e o outro estamos aqui. Pena que não é como antes - nada será como antes, diz uma subversiva lei natural -, e eu, no meio do grupo, vou acabar ficando com um outro, voltando para a saída. Irreversível! Não podemos brecar! Pior ainda: sabemos que, ao explodir, todo o conhecimento vai ser apagado.

     Agora falo por mim, mas sei que os outros pensam como eu e prefeririam ficar, como parte da ausência. Apesar de ser a volta para onde não queremos sair quando estamos lá, ninguém quer ir. E, neste momento, a sensação é de pura asfixia. Tentamos pilheriar: - Pode ser um simples cordão umbilical...

     Pois é isso, então... Tudo leva a crer que não adianta espernear. Os frutos estão embebidos em curare e nós temos que comê-los. Mas, ainda reservamos forças para um último e definitivo pacto: - Lutar para que o destino não receba o prêmio do seguro.

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro