Francisco Dandão
 
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  O caminho do coração  
         
  Francisco Dandão
Dezembro de 2006
 
         
 

busca da palavra certa para começar a apresentação deste primeiro livro do compadre José Augusto Fontes revela-se vã desde o momento inicial. Substância fugidia, ela se delineia no meu cérebro, mas não flui da abstração para a tela. Nem umazinha que possa puxar outra e, assim, venha a formar algum tipo de encadeamento lógico, cheio de gotas de razão.

Água, fogo, ar, a sombra no espelho, tudo leva diretamente ao caminho do coração. É fácil escutar o seu bombear compassado, basta apagar a luz ou fechar os olhos para a ilusão dos sentidos; difícil é traduzir o som da sua batida e tornar material a emoção. Eu escuto a pancada, ela reverbera nas paredes das minhas células, mas não a consigo dizer.

Na sombra do espelho as palavras refletem o melhor instante para viver e portas se abrem para a prosa caminhar pela cidade. Túnel de um tempo que permanece aqui, justamente por ter passado. O cronista poeta persegue esse tempo, tornando possível hoje e amanhã. Por seus atalhos, truques e modesta vastidão, personagens ressuscitados se levantam e andam.

Cada uma das sentenças do escritor José Augusto Fontes é uma imagem que fica excitando a imaginação de quem o lê, como um cheiro bom de flores que só vicejam na primavera, ou como um orgasmo prolongado que traz na fugacidade do momento um gosto de nova e eterna vida. Cada sentença é única... E ecoa no nada para todos os lados.

Revelação vã é idéia que não se completa, palavra que não se consegue escrever, deserto onde se delineia a face austera do filósofo Agostinho, o santo que compreendia, a ponto de saber, o que era o tempo, mas não conseguia dizê-lo quando perguntado. Fotografia colorida aprisionando cores num papel, mas incapaz de recriar o mundo real.

Substância fugidia, gota de orvalho numa pitada de amor: está aqui num momento, no outro não está mais. A cada instante são novas águas. A cada instante é preciso seguir , diz o poeta ao fazer do sol poente uma estrela-guia, cruzar uma das pontes sobre o rio Acre e testemunhar mais uma tarde abafada se afogando, antes da chuva anunciada no horizonte.

A busca da palavra certa agasalhou regionalismos, brasileirismos e universalismos. Caminhei em círculos, indo cada vez mais longe (no tempo e no espaço, na terra e no céu, nas vísceras e no pensamento) sem sair do lugar. Do texto abstrato, com alguma abstração, rapidamente obtém-se a matéria. Palavras para o prazer, nos lábios da letra que há para saciar .

O caminho do coração se revela pela palavra, seja verbo ou substantivo. Como luz, a palavra viaja continentes e pensamentos... Ao dizer, também esconde, brinca com o destino dos homens e os livra da morte pela expressão. Embora não a encontre, transformo-a em oxigênio e incorporo-a enquanto mergulho fundo no texto de José Augusto Fontes!

(Prefácio do livro Páginas da Amazônia - Proseando na Floresta , do cronista José Augusto Fontes, publicado em dezembro de 2006)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro