| Corações de Borracha | ||||
| Francisco Dandão | 2004 |
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A partir de então, qualquer que tenha sido a estação, muita água serpenteou pelo território brasileiro rumo ao Oceano Atlântico. Outro tanto do mesmo líquido subiu aos céus em forma de vapor e voltou a se derramar pela imensidão do território nacional, principalmente na Amazônia, tão pródiga de histórias quanto seus milhares de espécies minerais, vegetais e animais. No meu entendimento, essa abundância de água, elemento básico para o nascimento e o crescimento de quase todos os seres vivos, é que foi vital para a explosão de escritores de todos os naipes e estilos em toda a extensão dos trópicos nativos (tristes, às vezes, é certo, mas também delirantes, de vez em quando, igualmente é certo), durante esses quinhentos e poucos anos. Dois exemplos marcantes dessas minhas afirmações são os livros do jornalista Silvio Martinello. O primeiro, no ano passado, A Ilha da Consciência , sobre os anos iniciais da formação do Acre. E agora este Corações de Borracha , narrando a saga dos arigós durante a primeira metade dos anos de 1940, desde os sertões nordestinos até o interior da nossa selva. A narrativa de Corações de Borracha vai surpreender quem imagina que estará abrindo um livro de absoluta ficção. A trama principal pode até, de verdade, ter saído todinha da cabeça privilegiada do autor. O pano de fundo, por trás dos dramas do Doutor José Eugênio, o protagonista, entretanto, é todo tecido com a mais pura linha mestra da historiografia regional. Os personagens que desfilam pelas páginas de Corações de Borracha parecem rodopiar ao nosso redor, tal a verossimilhança com a própria história dos antepassados de cada um de nós, acreanos de pés rachados. Arigós e coronéis de barranco, a eterna luta por dentro dos varadouros ou nas soleiras das casas grandes, o látex escorrendo farto, a miséria e a morte, tudo está aqui. Embora, em se tratando de arte, como afirmava Goethe, nem sempre haja a necessidade de que o verdadeiro tome corpo, bastando que "adeje por perto do espírito e provoque uma espécie de acorde, como quando o som dos sinos flutua amigo na atmosfera trazendo paz", nas páginas escritas por Silvio Martinello borracha e corações são a própria tradução da realidade. Tanto que, no caso de algum cético fizer questão de tirar a prova, é só procurar os registros. Talvez apenas algumas horas sejam suficientes. Certidões de nascimento e/ou óbito espalhadas pelas diversas cidades acreanas se apresentarão aos olhos de qualquer um e dirão que existiram mesmo tanto a Dona Luíza quanto a arigozinha Vitória e todos os demais citados no texto. Totalmente inventados, somente Getúlio Vargas, Oscar Passos, Jean Pierre Chabloz, Mussolini, Hitler, Samuel Wainer, Eloy de Souza, Álvaro Maia, Franklin Delano Roosevelt, Walt Disney, Osvaldo Aranha, Coronel Barata, Ezequiel Burgos e outros de carne e osso que de uma ou outra forma ajudaram a fazer dos grotões da Amazônia um Pearl Harbor silencioso. A conexão entre tempo, história e ficção é perfeita em Silvio Martinello. Não há elementos excedentes na narrativa de Corações de Borracha . Ao contrário, o que há, no fim do livro, é uma vontade enorme de continuar lendo. A minha esperança, nesse sentido, é que a saga continue em breve, quem sabe com o menino Messias, o filho que José Eugênio deixou no seringal. Corações de Borracha (assim como A Ilha da Consciência ), ao sair do mundo das abstrações e se materializar em forma de livro, acabou se transformando na mais autêntica expressão do nosso desejo de revisitar com tintas modernas um passado que os compêndios didáticos não tiveram até hoje a competência (talvez seja melhor dizer "a coragem") de nos explicar. Eu diria, para encerrar esta apresentação, que a arqueologia literária da Amazônia (mais especificamente do espaço que compreende o território acreano), saída das mãos talentosas do jornalista/escritor Silvio Martinello, na medida em que nos lança vertiginosamente em direção à nossa própria gênese, resgata a nossa verdadeira identidade. E assim sendo, não é demais dizer que este é um livro que já nasce clássico. Alvíssaras! (Apresentação do livro Corações de Borracha , do jornalista Silvio Martinello, lançado no ano de 2004) |
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© Francisco de Moura Pinheiro |
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