 orpo e poesia são termos indissociáveis. Um não vive sem o outro. Entre as idas e vindas eles se completam. Fitam-se nos olhos em espelhos curvos. Afastam-se e buscam nos reflexos os estranhamentos e os pontos de convergência. No fim das contas, espalhados pelo vento, são uma só coisa, irmãos siameses, mesmo quando caminham em direções contrárias.
A poesia nasce do espírito, mas precisa do corpo para se tornar palpável. E volta à dimensão imaterial quando quem a vê sente um frêmito percorrer-lhe a espinha, uma sensação de cócega subindo-lhe do estômago para as nuvens, um coração a bater descompassado. A poesia flui do espírito, abala nossos sentidos e nos deixa para sempre diferentes quando vai embora.
O corpo alimenta-se de líquidos e sólidos, precisa de exercícios constantes para não atrofiar os músculos, consome proteínas, vitaminas e sais minerais para se manter saudável, mas não pode viver sem poesia, sob pena de caminhar sem objetivo rumo ao próprio epitáfio. E se assim o fizer, chegará ao fim sem saber por que passou ou mesmo a que veio nessa vida.
Poesia é imagem, metáfora, fantasia para potencializar os sentimentos da humanidade. Nos corpos humanos estão os sinais vitais para fazer da poesia uma eterna fonte de prazer. Mínimos detalhes, às vezes quase imperceptíveis, é que confirmam isso. Um leve rubor na face, uma lágrima furtiva, mãos geladas, têmporas úmidas, voz embargada, aberta emoção...
Penso nessas coisas enquanto leio os originais desse novo livro do escritor Alan Rick. E penso com admiração o quanto ele é capaz de incorporar tudo isso e nos transportar para um mundo que sabemos existir, mas que só o alcançamos quando seguimos a inspiração do poeta. Penso e viajo em velocidade alucinante por dentro de cada palavra e de cada verso.
E como se não bastasse, Alan Rick, não satisfeito com o seu próprio trabalho, ainda nos entrega generosamente textos inéditos de Mário Maia. O mestre certamente nos observa do além e sorri com essa prova definitiva (principalmente para os eternos céticos) de que a poesia sobrevive ao tempo e à matéria. Sobrevivendo faz eternizar cada instante que se vai.
Por último, no momento em que dou efusivos parabéns ao Alan Rick por mais essa obra, quero aconselhá-lo a prestar atenção nos seus iguais: todos aqueles que ao lerem os poemas do livro confessarem o mesmo rumor por dentro das respectivas almas. Nessa comunhão estará um “grão de luz” descendo à Terra, para fecundá-la e formar, assim, uma nova planta.
(Prefácio do livro Reflexo D´Alma, do escritor Alan Rick, lançado no ano de 2004)
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