Francisco Dandão
 
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  Confessionário público  
         
  Francisco Dandão
- Dezembro de 2009 -
 
         
 

cCinco são os sentidos que dão aos seres humanos a possibilidade de decodificar o mundo, fazer as suas leituras individuais, emitir os seus julgamentos, optar por isso, aquilo ou aquilo outro. O conjunto desses sentidos é que nos dá a noção de realidade. Sem qualquer um deles, pode se dizer, perde-se um tanto da capacidade de interação com o universo.

     Um desses sentidos, entretanto, me parece nos atingir de modo mais, digamos, efetivo. Trata-se da audição. Dependendo do som que entra pelos nossos ouvidos, podemos passar do mais sublime êxtase ao terror mais absoluto. E só fechar os olhos (ou ficar num quarto escuro), prestando atenção nos sons em volta para constatar isso que eu estou dizendo.

     Foi pela audição que o locutor e cineasta Orson Welles, em outubro de 1938, por exemplo, levou pânico aos Estados Unidos da América, narrando uma suposta invasão de marcianos ao planeta Terra. Milhares de pessoas que ligaram o rádio durante a transmissão foram levadas ao extremo do horror, imaginando que, de fato, alienígenas estavam chegando.

     Pois foi justamente por conta desse especialíssimo sentido, capaz de nos conduzir a extremos perceptivos, que eu tive o meu primeiro contato com a jornalista, publicitária, radialista e agora escritora Eliane Pereira Sinhasique, uma baixinha que, não por acaso, ganhou com toda a justiça, dada a sua trajetória na radiofonia acreana, o epíteto de Pequena Notável.

     Durante muito tempo Eliane Sinhasique foi para mim somente (!?) uma linda voz: a um só tempo doce, suave, sensual, mas também firme na sua convicção de ajudar ouvintes necessitados, assim como incansável na busca pela melhor informação, pela primazia da notícia, onde quer que ela estivesse acontecendo. A própria essência do rádio, eu ousaria dizer.

     Quer dizer: quando passei a conviver com ela (numa sala de aula, eu como professor e ela como aluna), de fato, já a conhecia. Apenas passei a conhecê-la melhor. E posso garantir que ela foi uma das minhas alunas mais brilhantes e inquietas, eternamente em busca de uma ponte que pudesse dar sentido às teorias da comunicação em favor da existência.

     Foi por essa época, nessa convivência acadêmica com a Eliane Sinhasique, que eu resolvi, certo dia, escrever um artigo sobre um quadro do programa Toque Retoque, apresentado por ela na Rádio Gazeta FM. O quadro chamava-se Não diga alô, diga boa-tarde, uma espécie de confessionário público para quem quisesse contar a própria história.

     O artigo eu o apresentei depois em dois congressos universitários: o III Seminário da Rede Alfredo de Carvalho (Novo Hamburgo - 2005) e o VIII Seminário Internacional da Comunicação (PUC - Porto Alegre - 2005). Em ambos, a demonstração de curiosidade e admiração dos presentes, com relação ao programa e à história da apresentadora acreana.

     O programa Toque Retoque foi ao ar pela primeira vez no dia 23 de janeiro de 1995. Não diga alô, diga boa-tarde foi instituído pouco depois da virada do século. Logo em seguida surgiu a idéia de publicar no jornal impresso (A Gazeta) a versão escrita desses relatos. E aí surgiu uma nova modalidade: a das pessoas que mandavam seus relatos direto para o jornal.

     Provavelmente, uma espécie de tentativa desesperada por parte dos ouvintes, sombras de nenhuma visibilidade atravessando uma corda bamba de nenhum lugar para lugar nenhum; passaporte para o deleite momentâneo, proporcionado pelo eco da própria voz; histórias ordinárias para a massa apocalíptica e sem espaço nos veículos de comunicação.

     Este livro é a reunião dessas histórias. A idéia, segundo a autora, é que muita gente possa ler os desabafos dos mais corajosos e se reconheça nos relatos. Mais uma grande sacada da Eliane Sinhasique. Afinal, numa época de ditadura absoluta da imagem, tudo o que a maioria de nós anseia é por alguns minutos de visibilidade. Cumpra-se, então, a profecia!

(Prefácio do livro Confidências radiofônicas de um povo sem voz, da radialista Eliane Sinhasique, publicado em dezembro de 2009)

 
         
         
 
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© Francisco de Moura Pinheiro